Devaneio

                           O trânsito está ficando lento. Naquela rua, ela está dirigindo só sabendo da sua frente. Como um capitão de um navio, procurando avistar no horizonte o mar revolto ou calmo. De repente, aparece um mendigo com uma mão estendida. Durante a visão do desafortunado, que a fez desviar o olhar para o lado, pensa “Não gosto disso”, ela faz sinal de negativo com dedo balançando. Ao olhar para o horizonte de carros continua pensando. “Isso não é comigo, idiota deveria trabalhar” — diz pra si mesma. A seriedade no rosto conduz o automóvel para o escritório, onde exerce sua função há anos. Estacionado o automóvel na vaga, o seu Manoel, um senhor de idade atencioso que trabalha como um vigia, vem dar um bom dia a ela. A educação esconde a verdadeira resposta. “Só é capaz disso, por isso estou aqui dentro e você aí fora. Fique aí mesmo.”. Sentando-se à mesa, diz alto:
                     — O mundo é o trabalho, quem não trabalha... — conclui — quer nada.
                     E começa a mover papeis de balanços, e páginas de livros razões, pois um livro não é bastante, de um lado para o outro da mesa. Dava carimbadas fortes por um tempo de dez minutos e pausa de um minuto, é tão precisa que outras pessoas baseavam o acerto do relógio, nas pausas e batidas dela. Depois, cansava-se de vez.
                    Em momento da sua pausa, ela é chamada pelo chefe, a entrada de funcionários é comum na sala do chefe, mas ninguém sabe o conteúdo das conversas. Ele fala para ela:
                    — Você trabalha aqui há anos, mas você não parece experiente, você não comete muitos erros, o seu trabalho, porém, é medíocre, porque sua comunicação é medíocre, você só fica atrás daquela mesa, além de você ser distraída... você é um a pessoa insegura, ao meu ver. Não, o senhor está errado. A única coisa que faço na vida é o trabalho. Aqui vem em primeiro lugar. Eu sou muito comprometida com meus deveres. Eu nunca deixaria alguma coisa por fazer, por motivo algum.
                 — Você deixa alguma coisa te atrapalhar, o resultado do seu trabalho podia ser melhor, outras pessoas fazem o que você deveria analisar. Você bate carimbos em documentos errados, os lançamentos nos livros ficam incorretos por sua causa, aí outros tem que resolver isso e você não diz o que ocorre, não pergunta, não se desculpa, isto está errado.
                 — O senhor pode ter razão, mas eu só tenho um pensamento voando pela minha cabeça, não me distraio; eu não converso muito, mas eu, atrás daquela mesa, sou puro trabalho. Estou aqui todos os dias. O senhor pode comprovar, no relógio de ponto, o horário que chego.
                 — Você não está aqui. Você só tem presença física, sua alma viaja por aí. Você está viajando agora. — e olhando antes que ela respondesse, continua. — Eu quero eficácia, você pode ser eficaz aonde quiser, aqui, dentro — com o dedo indicador apontando para o chão — , você é nada. Você está na rua.

                   Ela foi à sua mesa, pegou a bolsa e saiu do local, sem ao menos querer saber sobre seus direitos trabalhistas. Pegava o automóvel para casa, numa viagem mais longa e aérea, voando por um vazio. Nunca havia chegado, em casa, naquele horário. Sentava no sofá saboreando os pés livres dos sapatos, normas do escritório o par de sapatos terem de ser fechados. Maravilhoso sentir a liberdade daquele estresse. Passa tempo até o estômago avisar que passou demais. Ao abrir a geladeira, um cheiro azedo dá um soco no nariz, um mal cheiro empesteia a cozinha. Alguma coisa morreu dentro da geladeira, só pode ser isso, fazia muito dias que ela não a abria, só comia fora de casa. “ Procurei fazer tudo organizado. O que aconteceu? É impossível, tudo que pensei, não saí nada como quero.”, remói seus pensamentos, até perceber a fonte do fedor: uma garrafa de leite vencido atrás de vários outros produtos. “Por que o leite azedou, se penso em tudo corretamente?” , ao olhar para o calendário, ela tenta imaginar quando comprou aquilo, ela reflete “Deveria ter pensado no tempo de consumo.” Só resta se livrar do leite estragado e assumir o trabalho de limpar a geladeira.

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