Ratoeira para ratos

Há algum tempo, um novo restaurante não tem chamado à atenção. As pessoas se cansaram da novidade. Agora quase vive as moscas como frequentadoras habituais. Nessa situação quase desértica continua sentado Fábio, idealizador politico, um estrategista politico apalpador de oportunidades. Está tomando uma caipirinha quando finalmente chega um colega de partido, um contador chamado Rodrigo. Seguido por um casal, que entra logo após, Rodrigo encontra fácil o rosto de Fábio misturado às mesas.
— Olá, rapaz! — diz Rodrigo estendendo a mão a Fábio.
— Tudo bem. — responde Fábio.
— Você já pediu alguma coisa?— pergunta Rodrigo já sentado.
— Não... Só estava tomando esta dose. — levanta o copo de caipirinha.
—Isso é bom pra animar, me faz lembrar as festas badaladas do partido.
Fábio coloca o copo sobre a mesa com um sorrisinho malicioso, encara o outro e fala:
— Você vai a muitas festas, não? Por que você não está com eles agora e deixa os pobres em paz?
— Que foi? Está ranzinza? Fale.
— Não estamos em festas, nunca fui convidado pra nenhuma festa do partido.
— Nunca? Os chefões nunca te convidaram? Pensava que você próximo deles, mais do que eu.
— Não. Você também nunca foi a uma dessas festas?
— Não rapaz, só ouço falar de que são quentes. —sorri Rodrigo.
— Somos excluídos, mas no momento que precisam de ajuda correm até nós.
—Eles são nada sem nós. Bom é por isso que estamos aqui.
— Como assim? Vamos falar dos outros o tempo todo? — Fábio mostrando espanto.
— Não. Estamos aqui para decidir como lucrar mais. — Rodrigo querendo afastar com mãos, as ideias bêbadas de Fábio.
— Então você sabe como as coisas funcionam?
— Sim, — depois de uma pausa Rodrigo fica sério —eu sei de tudo, mas eu não coloco minha cara em público à toa, falando essas coisas que ninguém gostaria de ouvir.
— Não tem ninguém por aqui, veja. —Fábio aponta pras costas de Rodrigo.
Rodrigo olha pra trás e não vê ninguém. Ele aproveita e olha em volta e vê mais vazio. Só está o casal que chegou ao mesmo instante dele. Fábio pergunta:
— Esse plano é pra nós dois?
—Isso mesmo, esse você não der um passo pra trás.
— É claro que eu não vou vacilar. Eu quero a minha parte do esquema deles! Eu sei que há um desvio de dinheiro, dinheiro que entra de forma esquisita e sai por outra com outra roupa!
—Fale mais baixo, você bebeu demais? —pergunta Rodrigo.
Rodrigo olhava o casal para o casal que entrou depois dele. Só têm eles no momento nesse recinto. O casal só tem olhos para o cardápio. Eles discutem as opções coladinhos. Ele ao perceber que não chamaram a atenção volta à atenção ao garçom, porque está com fome. Rodrigo fala ”Oh! Garçom!”, faz um gesto, o garçom chamado diz “pois não?”. Rodrigo manda trazer o primeiro aperitivo que aponta no cardápio.
— O que você quer? Tá maluco?— pergunta Rodrigo ao Fábio.
—Quero dinheiro, eu participo e trabalho tanto e sou eixado de fora. Trabalho igual a um cão. Você confirma caixa dois no partido?
— Sim, existe isso, vou explicar.
O garçom vem e coloca os aperitivos; pastéis quentes de salmão. O garçom se retira  e Rodrigo continua.
—Todo dinheiro do partido é um bolo qual nunca diminui e todos podem pegar uma fatia; antes, durante e depois de eleições, para todo candidato a senador, deputado federal e presidência da república, há uma “comissão”, vindo do caixa, para demais candidatos ao legislativo, a fim de garantir apoio antes, durante e talvez depois das eleições; com coligações, tudo aquilo é multiplicado e quem estiver por perto pode ser laranja desses candidatos, na prática, porém, só alguns conhecem esse segredo. Por isso você nunca foi avisado, é muito dinheiro, e querem poucos privilegiados.
— Eu sabia que tinha alguma coisa ligação com a governabilidade. Caramba! — se espanta Fábio — Você participa desse esquema?
— Não, eu só ganho pra ficar calado e ajudo nas movimentações, mas quero mais, é muito dinheiro. — solta um sorrisinho Rodrigo.
— E agora você quer participar comigo; você poderia ter entrado nisso quando se tornou contador deles.
— Essa trama é toda deles, além de que é seguro mais ninguém suspeitar de funcionário na minha posição, ainda acho que eles são perigosos.
— Eles poderiam te ferir se você sair da linha?
— Não duvide.
— Agora estou brochando.
— Você queria entra com força quase agora, vai desistir?
— Não! —responde enfaticamente Fábio.
— Então está tudo certo, olha, nós vamos entrar como laranjas neste esquema, em meses será dinheiro pra nós.
— Então brindemos!— Fábio levanta o seu copo.
Rodrigo levanta o seu copo e toca delicadamente sem barulho o copo do outro. Aí começam apreciar os pasteis. Percebido o gosto diferente, Rodrigo comenta:
— Que saboroso, de que é? Você sabe?
— Não sei... Você não escolheu? Não prestou atenção?
Rodrigo pega o cardápio e mastiga de boca aberta, mostrando o conhecido bolo alimentar aprendido na escola. Vagarosamente apreciado, mexendo a língua para sentir o gosto daquele pastel exótico. Ele olha o preço, em instantes volta a si quando Fábio manda fechar a boca.
— Nossa este pastel é caro! —exclama Rodrigo.
— Caro! Quanto?
— Veja, — Rodrigo mostra o cardápio e aponta nele — “tá” vendo.
 — É gostoso, mas é caro, é a primeira e ultima vez que venho aqui.
— Você nunca tinha vindo aqui antes? Pensei que conhecesse o lugar.
— Nunca tinha vindo, por que você pensou isso?
— Você escolheu, pensara que soubesse como é o lugar.
— Eu? Não me lembro...  Exatamente por que eu escolhi?— uma virada de olhos de Fábio — Foi só uma novidade de que tinha ouvido falar.
Rodrigo não prestava atenção, um rato tinha dado olá pra ele. O bicho saiu não se sabe de onde e o encarava. Depois passeia entre as mesas e some. Espantado, ele diz:
— Eu vi um rato!
— Onde?
— Atrás de você! Ele passou andando e foi pra não sei aonde.
— Melhor é sair daqui?
— Vamos, um restaurante deveria ter mais decência e capacidade e gerência. Meu Deus! Que nojo! — Rodrigo fala colocando o pastel comido de volta ao cesto.
— Eles devem só pensar no lucro, se esquecem de que servem pra outras pessoas. —completa o pensamento Fábio. 
 Rodrigo tem o pensamento interrompido por um homem de colete preto.
—Perdeu! Perdeu! —homem fala com uma mão para levantada.
Rodrigo nota a autoridade querendo que ele fique parado. Ele se levanta, vira-se e vê o casal, cada um, com a mão em uma arma na cintura. Uma cilada. Fábio não demonstra reação. Rodrigo é levado pra fora do restaurante, para prestar esclarecimentos em uma delegacia. Os policiais são os únicos que movimentam o decadente lugar.

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