Os vivos-mortos

               O tempo estava esfriando. Fernando acaba de chegar ao novo emprego. Faz um serviço semelhante aos de seus colegas, Joaquim e Amauri.
               — Podem deixar, eu pego a fatura. —diz o Fernando em solidariedade aos seus colegas.
                Ele faz sempre isso: ajudar aos outros sem ninguém ajudar ao seu meticuloso trabalho. Joaquim e                    Amauri já confiavam no trabalho do outro, sem nenhuma cobrança ou visualização do feito. Um dia, em um determinado momento,  o chefe de departamento fala a Joaquim e Amauri dentro de sua sala:
            — Vocês terminem o que estão fazendo e deem os seus trabalhos para o Fernando xerocar. Ele só tem que fazer isso, por isso eu tudo feito ainda hoje.
            — O Fernando só vai tirar fotocópias? Ele não vaia nos ajudar?— pergunta Joaquim.
            —É isso, ele é só um ajudante do nosso departamento minúsculo.
           Logo, que saem da sala do chefe, Amauri fala:
           — Caramba! Ele demora tanto pra fazer o serviço, sempre pensei que fosse algo importante.
           — Por isso que ele sempre ajuda alguma coisa: ele tem tempo pra lidar com qualquer coisa e lidar com o trabalho de merda dele, aliás, ele deve ter trabalho nenhum.
           — Sempre pareceu um trabalho delicado demais pra ser feito por uma pessoa qualquer e somente ele pudesse fazer.
            Joaquim e Amauri ao se aproximarem das suas mesas, veem o Fernando em seu trabalho delicado com papeis e caneta. Amauri não se contém:
            —Cuidado Joaquim! Devagar e sempre se vai longe... Do olho da rua para onde Judas perdeu as botas.
           — Não se preocupe que eu sou tão rápido quanto a Minardi. É suficiente pra esse trabalho, pelo que estou vendo.
           Uma semana passou e Fernando foi aceito pelos demais colegas, até parece que está sendo imitado; Amauri fala quando chega perto da mesa de Joaquim:
           — Você ainda está fazendo isso? Você não devia ter terminado ontem?
           Não sei. Estou contagiado pelo método de trabalho de Fernando. AAHHH! —termina com um bocejo alto.
            — Eu também estou com uma preguiçinha , AAAHHH. — Outro bocejo.
            Joaquim não termina o trabalho, deixando-o para o outro dia. O meio-dia, do dia seguinte, Joaquim está sonolento, Amauri toma a 11ª xícara de café para poder se manter alerta e se manter de pé. Fernando não aparece. Amauri novamente se aproxima do amigo falando:
          — Vou tirar um cochilo nesse tempo gostoso! — fala Joaquim se espreguiçando.
          — É meio-dia cara! Ainda não é inverno.
          — Não parece; você está tomando café pra se sentir aquecido, não?
          — Eu tomo pra não dormir, eu tenho trabalho, o chefe vigia tudo.
          Nisso o chefe de departamento mostra-se abatido, caminhado devagar e olhar perdido fala:
          — Joaquim! Você assume a responsabilidade no meu lugar, qualquer coisa me liga, estou muito cansado...  Vou pra casa.
           Não passa cinco minutos e Amauri resolve aproveitar a promoção momentânea:
           —  Ôoo “chefe”, vou comprar maais café, AAHH!
           — Pode ir.
            Amauri saía a passos curtos, na visão de Joaquim, sem conexão com o tempo, pois ele se desfazia em sua mente. Sozinho e sendo “chefe” toma uma boa decisão: irá dormir um pouco, acordará relaxado e mais preparado para o trabalho. Ele afasta alguns papéis, cruza os braços sobre a mesa e fecha os olhos pesados. Joaquim está em barco numa tempestade, sacudindo com violência, Joaquim está sendo jogado de um lado ao outro, seus músculos do corpo doem com a força dos impactos. Ele acorda e vê um homem mascarado o sacudindo com força. Quando o homem percebe o outro acordando, grita:
             — Este aqui ainda está vivo! —outro homem também mascarado se aproxima.
             — Queem é voocêê?— pergunta sonolento.
             — Sou da vigilância epidêmica, está tendo um surto de uma nova doença, você tem se sentido com preguiça, sonolento, cansado sem ter feito esforço?
             — Siim...
             — Há outros com você neste local de trabalho, com os mesmos sintomas?
             — Tinha o meeu cheefe, meeu amigo e um caaaraaa novoo que não aapareceu hooje.—sempre bocejando.
              — Há quanto tempo você começou a sentir o cansaço?
              — HHá uumaa semaana, logo depois quee o Feernaando chegou... Ele sempre pareceu preguiçoosoo.
O homem olha para o companheiro e ,de costas para o moribundo, diz algumas coisas como “poucos recursos... é um problema sério... estágio avançado... melhor deixá-lo”, palavras soltas para o doente. Ele volta a olhar para Joaquim e diz:
               — Tudo bem, nós já voltaremos não saia daí. — e faz um sinal de positivo enquanto iam embora.
 Joaquim não tinha mais forças pra alguma coisa. Ele se sente preso à cadeira, bastante suado através das roupas.  Não ouve mais os sons daqueles homens, foram embora, portanto. Eles voltariam ou não o resgatariam, aliás, Joaquim não percebesse o seu resgate. Ele ainda está acordado, mas extremamente cansado para mover-se. Ele pensa no resgate e cuidados médicos, por que tem a impressão que aqueles homens voltaram. Mais minutos se passam sem ninguém aparecer, mas a sensação de alguém chegando continua firme. Seu ouvido cansado lhe demonstra que a sensação é verdadeira, há alguma coisa na porta. Ele vira o rosto e vê Amauri se arrastando pelo chão.
— Caaaraa, éé voocêê? – diz arrastando Joaquim.
— Joaaquim, você eestá pior que eeu. Teemos que peedir aajudaar.
— Aaqueelees caaras vão nos aajuudaar.
— Nãão vão elees passaram por miim, me viiram viivuu, mee deixaaram. —fala sem folego o Amauri.
— Voocêê nããoo fooi compraa caafé?
— Caair dí cansado oontem, naa calçadaa, só acoordei quando aqueele peessoal veiuu.
— Oonteem?

— Seem nooção doo tempoo.
             Sem noção da doença estranha deles. A infecção se espalhou rápido, não tiveram avisos, vacinas e contramedidas eficazes do governo. Amauri ainda tenta se arrastar atrás de alguma coisa. A percepção quase atenta de Joaquim localiza o amigo. Aqueles homens apareceram de tarde e já é noite, talvez do mesmo dia. Amauri usa todas suas forças, seu objetivo desconhecido está na sua mesa. Ele tenta se apoiar na mesa, escorrega e cai. Tenta de novo usando o muque, coloca todo peso nisso e a mesa vira sobre ele. Joaquim não consegue falar com o amigo. Amauri fica lá, ou tentando recuperar as forças ou sem força alguma desiste. Eles não em mais trabalho, mais amizade, mais motivações, mais nada. Pode não haver humanidade para observar as estações.

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