Consigo mesmo


                — Eu quero sair daqui! — grita um homem.
                Ele está em coma, mas percebe tudo a sua volta. João está preso dentro do próprio corpo. Ouve as vozes do médico e das enfermeiras. Neste século cheio de avanços, não conseguiram ajudar efetivamente as pessoas nesse estado vegetativo.
                João se achara felizardo viver no século XXIV. O homem pode comprar peças de máquinas, instala-las no corpo, atualiza-las, e invejar os que têm a tecnologia mais moderna. As pessoas não são diferentes de máquinas; as pessoas continuam as mesmas, porém. Com um implante moderno de celular no ouvido interno direito, João chamara a atenção de bandidos, eles o atacaram e arrancaram o celular da cabeça, causando danos.
                Os cirurgiões fizeram o que podiam para restaurar as partes danificadas do cérebro. Parte de um novo corpo que João tem que se adaptar. As suas memórias se preservaram e tornaram-se um filme pra passar o tempo. Dentro da sua cabeça, ele pensa:
                —Por que eu fui comprar aquele celular? É moderno, avançado, mas não precisava. Queria estar na moda. Vi outra pessoa usando e quis igual. Idiotice. Pessoas antes de mim não precisaram instalar dispositivos no corpo, podia viver assim, viver numa sociedade diferente dessa. Teria que criar essa sociedade, voltar no tempo, onde todos falavam usando a boca, não uma fraude de telepatia. Tenho que sair daqui.
                Ele não vê a saída. Está de olhos fechados mesmo. Tenta abri-los. Tenta mexer os braços. Ele pensa:
                — Força de vontade, força de vontade, força de vontade! Vamos! Corpo responda!— mantra e as ordens não surtem efeito. — Meu corpo não me obedece, bem feito pra mim. Nunca liguei pra ele e ainda tenho que me adaptar a reconstrução dele. Sempre soube mais das peças eletrônicas do que o funcionamento do meu próprio corpo. Sou um ignorante nesse assunto.
                Ele não vê e sente nada, somente seus próprios pensamentos. O jeito é conversar com ele mesmo. João está prestes a criar seu próprio espaço mental, revisando conceitos:
— Como as pessoas rezaram... Devia rezar, mas não sei. Isso é coisa do passado cheio de religiões. A tecnologia substituiu tudo que era possível. Só não substituiu ações e responsabilidades. Será que sou responsável pelo meu estado atual?
Essa pergunta, ele queria fazer a alguém, embora não consiga. Não quer mais pensar sobre isso, contudo sobraram pensamentos dele para conviver:
— Sinto um vazio, um eco, eu estou aqui...confuso.
Ele está sozinho com ele mesmo neste exato momento.

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