Manipulação genética


Isaura nasceu em uma família modesta. Sem ter status e privilégios, seus pais fizeram poucas coisas que podiam fazê-la ter sucesso na vida: mudar sua carga genética afim de que tenha menos chances de desenvolver doenças e mais chances de ter habilidades. A moderna medicina dispensa transplantes de órgãos e tratamentos à base de remédios controlados, isso tudo é pra pessoas atrasadas, que não tiveram boa educação e providência familiar. O mundo é cruel e os pais de Isaura sabendo disso planejaram um futuro com médica ou advogada dando-lhe as melhores chances. Só não perguntaram pra ela sobre isso.

— Você quer ser malabarista? —pergunta a mãe abismada. — Você quer fugir com algum circo? Não tem nenhum circo na cidade pra você fazer isso!

— Não vou fugir! Vou fazer números de trapézio e equilíbrio temáticos. São apresentações sérias.

— Você sabe quanto dinheiro eu e seu pai investimos em você? Seu tratamento genético custou caro pra nós. Diga para ela amor. —ao dizer isso se vira pra o marido sentado calmante em uma poltrona, ele fica calado, mas com ar de confiança. —Te demos o melhor de nós, você não pode jogar fora.

— Não vou jogar fora nada. Vocês não me deram o melhor? Eu tenho habilidades imbatíveis e vou usa-las.

— Era pra você ter futuro, ser respeitada...

O pai se levanta poltrona e calmamente entre as duas, fala:

— Querida você pode fazer o que quiser, mas sua mãe e eu só queremos o melhor para você. Quando decidimos sobre seu código genético, só pensamos no seu bem. Desde antes de você nascer só queremos o melhor pra você até agora.

—Pois então, eu estou decidindo o que acho melhor, sou muito boa com minhas acrobacias. — Isaura batendo no mesmo assunto

— Queríamos que você superasse as pessoas medianas. Você melhor que elas e terá um emprego normal e sucesso. — o pai.

— Você devia perceber que o mundo de hoje está recheado com os melhores, ocupando as melhores posições, é o mundo que seu pai e eu queríamos estar. Fizemos por você o que nossos pais, seus avós, nunca poderiam ter feito.

— Poxa vida! Se eu não fizer o quero... Como vou saber o que é bom pra mim? Eu não tenho opção?

— Você não vai saber, nós sabemos. —diz a mãe.

— Com um emprego normal, vai poder ajudar na velhice.

Isaura senta-se no sofá, embora se levanta decidida. Olhando para algum ponto do tapete, ela aceita os conselhos dos pais dizendo:

— Está bem, eu vou fazer o que vocês quiserem.

— Está vendo não é tão difícil...

Isaura sai em direção ao quarto sob olhares dos pais. O som dos passos noutra direção se torna menos intenso. Quando eles têm certeza de que ela entrou lá, o pai sorri consigo mesmo e diz para a esposa:

— Viu os genes da passividade estão atuando, ela vai nos obedecer sempre. Você ficou desesperada, né?

— E não foi? Pensei que ela era mutante, que jogáramos  dinheiro fora. —diz a mulher com suspiro de alívio.
Assim sobre os ombros de Isaura cai o peso de toda a família, mas ela foi preparada.

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