Chega de pensamentos


                Um homem chega à casa cansado do trabalho. Ele mora sozinho, não pensa em companhia como algo que falte ou perturbe. Sente que já tivera satisfações suficientes na vida: mulheres, paixões, filhos e preocupações, para alguém que não está na metade da vida é um pouco exagerado.
                Ele senta-se de frente pra televisão, observa a cena sobre violência; bandidos sendo perseguidos pela polícia, um tiroteio em alta velocidade. ”eu já fui idiota, assim desperdicei a vida.” Prende a respiração e surpreende-se ao notar a própria sabedoria. Sentido também a respiração em outra atmosfera.
                Percebia o ambiente com ar estranho, puxa o ar pra dentro dos pulmões voltando pra si e normalizado. Confuso, procura na casa a razão da tentativa de intoxicação. Preocupado, mas aliviado porque se safou a tempo. “Como me safei se continuei respirando o mesmo ar?”, pensa boquiaberto. Sem entender o que acontecera instantes antes, a certeza de um ar viciado torna-se apagada e sem vida na mente. Não bebeu, não cheirou nem tem histórico de distúrbio mental para ter alucinações, a respiração, porém, estava diferente, ele a sentia diferente. O obvio veio à tona. Ele se sentira outra pessoa, com uma respiração diferente, numa atmosfera diferente, em um momento distinto na qual ele vivia. Se ele sentisse no lugar de outra pessoa, por que não continuaria a ser a pessoa de antes? Algo mais aparece lentamente, subindo pelas costas uma sensação que chega até a nuca e salta a visão. Visões com as mãos maiores e bronzeadas são um contraste com as verdadeiras. A praia é linda quente, mais acolhedora do que a casa. O que é isso? Comprar um apartamento, se ele já tinha prestações da casa, não era uma boa ideia. Sair da casa dos pais. Como era possível se já tinham falecido. Os filhos iriam coloca-lo em asilo, se eles existissem. ”Eu tenho problemas com meus pensamentos”. Recordações, fantasias ou contatos mediúnicos? Não importa, no fim, é outra vida distinta da dele. ”Quando eu for o de antes, teria outra vida.”, uma presunção idiota, pois tem uma antítese em seguida.
                Vê-se como uma mulher dando a luz, num ato maravilhoso cujo esforço traz uma nova luz a mundo e em seguida não aguentando mais viver se joga do alto de um edifício causando um furor público. Para com as apneias e respira normalmente.  Respirações profundas e compassadas o fazem refletir que um pensamento por vez tem seu encadeamento lógico, as ultimas visões são demais. Aquilo tudo não é dele, não sabe de onde vem e o estava forçando a viver outras coisas. A própria vida não é empolgante, por isso precisa disso. Olha para o relógio, espanta-se ao perceber que passou uma hora na vida outros. Pelo menos é assim o pensamento. O homem se cansa dos pensamentos, arruma-se pra sair, espairece a mente, ele tem uma vida própria e vai vive-la. 

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