Os envergonhados

            Tonho e Jéssica irão festejar o Carnaval em um evento organizado pela prefeitura. O evento será um conjunto de apresentações de músicas tradicionais, em uma praça. Chegando lá, estando o local parcialmente cheio, está perfeito para o casal evitar aglomerações. Com isso, começaram a sentirem-se únicos. Num momento, depois de muitas apresentações, subia uma banda ao palco tocando samba de gafieira. Os poucos passos são tímidos ou inexistentes, malfeitos, mas a alegria supera. Um rodopio de Jéssica como uma bailarina russa é compartilhado por um sorriso franco de Tonho. No mundo só existe nós dois, pensa Jéssica. Um beijo de Tonho na mulher completa a execução da passista.

            Aplausos surgem das pessoas, atiçando a curiosidade dos dois, eles resolveram mudar o foco da dança única deles dois, para o restante do público. Será que esses aplausos são de um público próprio? Então perceberam que distantes, mas ao lado deles há um casal de bailarinos de verdade, divertindo-se entre os foliões. São de verdade, pois são preparados. A alegria de Tonho e Jéssica, não era única, o outro casal está alegre, mas, sendo profissionais, são capazes de um esforço e qualidade que aqueles não faziam ideia.  A falta de talento já tivera chegado e bate forte nos dois.

            A vergonha enterra os pés firmemente. Olhos grudados nos artistas do palco, não os do lado. O silêncio de ambos mastigou e engole a alegria de antes. Melhor ir pra casa para digerir melhor a vergonha.

— Amor, vamos para um local mais reservado? — pergunta Jéssica para o esposo.

— É, talvez seja melhor, aqui está lotado.

Eles vão pra um local mais distante na praça, apreciar o restante das apresentações; melhor ir de mansinho pra casa ao invés de sair correndo. Chama menos atenção. E assim eles somem da praça. As apresentações continuaram com alegrias a parte.

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