Miragem em casa

 Toca a campainha no apartamento. O dono atende, ele abre um sorriso ao ver o amigo, o cumprimenta e fala:
— Ah, chegou, nem queria! — diz com ironia, e pergunta ansioso. — E aí? Cadê elas?
— Estão subindo, elas estavam estacionando o carro de uma delas.
— Elas não vieram no seu carro?
— Não, não me quiseram dar tanta confiança.
— Mas você não as conhece do trabalho?
— Só conheço uma, hoje conheci a outra, mas não se preocupe que essa é bem gostosa, uma já é minha, a outra pode ficar pra você se quiser...
— É claro que quero! Não me estranhe! Você as conhece bem?Não quero roubada, não quero ver alguma coisa faltando no meu AP depois...
— Não seja exagerado!
— Você que é exagerado! Chega sempre perto da mentira!
— Vai dar tudo certo, vai dar tão certo que vou realizar minha fantasia de uma transa no banheiro, no seu banheiro... Não se incomode com o barulho da minha perfomance.
— Está tão carente assim? 
            — É só minha fantasia, vou realizar com uma mulher bronzeada... Vai me agradecer por trazer ela e a outra, podemos até trocar as duas... Sabe uma troca?
            — Entendi... — termina com certa alegria.
            Elas estão perto do apartamento, dá pra ouvir as vozes delas, é a confirmação o amigo. Quando elas estão finalmente no corredor, ele as conduz para dentro; o anfitrião vê primeiro a moreninha com marcas de biquini, a que seu amigo sonha, e vê a outra uma loira escultural, mas vê também um problema. O rosto dela tem alguma coisa distinta das outras pessoas; o nariz dela é grande, não é simplesmente grande, parece o nariz do Raul Gil. “Se sintam a vontade”, ele diz, mas o próprio não está à vontade, ao invés de um anfitrião caloroso e simpático, ele é esquisito e amedrontando.
— E aí? Cadê a festa? — pergunta a simpática morena.
— Vai começar agora, sem o principal não existe festa. — diz o colega.
E todos caem na mesma risada, menos o dissonante anfitrião. Todos acomodados, as garotas despertam interesse pelos rapazes. As perguntas partem da morena que tem afinidade com o colega de trabalho. O assustado, ao poucos esquece ou procura esquecer o assombroso. Nunca se tinha percebido como detalhista. A conversa, as piadas, os risos, as gargalhadas e, finalmente, a paquera começaram numa velocidade normal, menos para o ansioso, cujo lapso de tempo durou uma eternidade, suficientemente grande para esquecer-se do nariz. Quando o clima esquentou a loira não querendo segurar vela para os dois conhecidos, deu um olhar 43 para o que estava por fora da conversa, junto com uma cruzada e descruzada de pernas, mas o infeliz viu o rosto de Raul Gil abrindo um sorrisão. Ele pensou “Meu Deus! O que ele quer comigo?!” e repudiou com a maior cara de asco, já feita por ele. A coitada perdeu animo, no momento.
— Podia pegar alguma coisa pra nós bebermos? — pede a morena— Estamos com muita sede.
— É pra já!
— Eu vou ajudar você. — diz o anfitrião.
Quando os dois chegam à cozinha, o primeiro diz:
— Você não precisava vir eu sei onde estão.
— Eu precisava sair de lá... O ar esta empesteado.
— Como assim? A loira está dando mole pra você, vamos marcar um golaço hoje!
— Não sei, a minha mente está pregando peças...
— Não sei não... — diz o amigo duvidando da masculinidade do colega, com um gesto depreciativo.
— Que é isso? Eu sou macho!
— Vai lá machão! Faça sua parte.
Os dois voltam, mas só um está com a cabeça no lugar. Ao chegar à sala, dá pra ver as duas contentes, dividindo alegrias, seu paquera fala:
— Aí gatas, voltamos!
As duas olham para os dois, a perseguição do apresentador de televisão reaparece, o anfitrião finge não existe uma criatura com cabeça de homem e corpo de mulher. A morena diz:
— Vamos fazer o joguinho da verdade e...
— Aqui não tem chapéu nenhum! Eu, eu não uso!
Todos os outros três o olham atônitos. Que maluquice, maluco, eles estão em uma casa de um doente mental. Ele sai dali sem sentir vergonha, pois está sentido náusea. Tranca-se no banheiro e encara seu reflexo, cheio de nojo. Aceitar, dentro de casa, um homem que o paquera, mas não era um homem, era uma criatura abominável. Um trem de lembranças, deles dois se beijando, amando, torna-se desesperador, porém eles não se beijaram. Ele entope o ralo da pia com seu vômito, o desespero o força a tomar esta única atitude. O único modo de botar pra fora a pressão que está sentindo. “Meu Deus! Que horrível!” pensou, passada a sensação. Foi para a cozinha, beber um pouco da água e se recompor. Quando está recuperando-se lá, ouve alguém dizer que vai embora.
 Chega à sala com as garotas indo embora; o seu colega diz:
— Que merda você fez no banheiro? Se sente mal, vai para um hospital, longe daqui!
— Eu só vomitei um bagulho na pia...
— Você melou metade do banheiro, eu cheguei com as gracinhas lá e elas correram daqui, todas as duas!
—Seu sonho era só com uma? Você foi com as duas pro banheiro?
— É claro! Duas meninas estavam querendo e só um está afim, ia me revezar.
Há um momento de silêncio, o dono fecha a porta do apartamento, liga a televisão. Ele diz:
— Pegue uma cerveja, em um monte agora.
— Essa noite foi uma merda, vou tomar tudo!
E os dois sentaram-se no sofá.

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