Nova moda

          Amâncio está tomando o café da manhã, literalmente. Por isso ainda está em casa, que divide com a filha. Luiza ainda não apareceu pra comer, mas não tem importância, pois sabe que a filha compensará um possível atraso para o colégio. A querida aparece na cozinha, no fim do gole do pai, com o namorado Luciano.
— Bom dia. — diz Amâncio.
— Bom dia, pai. — diz com sorriso estranho.
— Bom dia, senhor Amâncio.
— Luciano caiu da cama? Luzia, você já devia estar pronta, assim seu namorado não espera por você, ele acordou cedo e você querendo acordar tarde.
— Senhor, não se preocupe, eu não tenho pressa. — diz Luciano.
— O Luciano ainda não está pronto pra aula.
Foi neste momento, Amâncio percebe que Luciano estivera ali, todo o tempo, de pijama.
— Rapaz, aconteceu alguma coisa? Você não saiu de sua casa até aqui, desse jeito? — apontando para as roupas dele.
— Não senhor, não aconteceu nada, eu dormi aqui... — disse Luciano com meio sorriso — Luiza e eu estamos em um namoramento.
— Dormiu aqui? O que é isso? Namoramento?
— Namoramento é pra nos ajudar a conhecer melhor. Ele dorme aqui, come aqui, compartilha do mesmo meu espaço da casa, pra vermos a rotina a dois... Pra decidirmos se casaremos no futuro ou não. — Luiza fala para o pai que se tornou uma parede.
Amâncio sai da imparcialidade, arregala os olhos, diz alto e furioso:
— Isso não existe, na cabeça de ninguém! Isso é casamento!
— Pai, não fique assim... Olhe...
— Não fique como? Furioso? É claro que vou ficar! Vocês vêm fazendo safadeza nas minhas costas e tenho que achar normal? Suma daqui seu safado!
— Senhor, vamos conversar... — Luciano é interrompido por um gesto de desdém de Amâncio. — Ficar com raiva desse jeito faz mal pra saúde do senhor.
— Eu disse pra você sumir! Tenho que conversar com a minha filha!
— Ele vai só se trocar... — diz Luiza.
— Vai agora! Se troque na rua, se bem que essa é única roupa, não é seu safadinho?
— O senhor está me ofendendo, eu não sou safado. O senhor dizer essas coisas me da liberdade de dizer coisas pro senhor também.
— Eu quero conversar com a minha filha sozinha, na minha casa! Entendeu?Suma.
Luiza e Luciano somem da vista do alterado pai. Amâncio impaciente ouve os sons de a porta bater e do retorno da filha. A cara de indignação dela poderia meter medo em alguém, menos no pai que dispara:
— Você acha que vou aceitar uma palhaçada dessas? Esse daí — apontando o dedo como se Luciano estivesse ainda presente —, come você, come a minha comida e tudo de graça. É um bostinha que não vou aceitar mais aqui dentro!
— Não fale mal ele! Ele não está aqui para se defender! — Luzia mostra que tem coragem se aproximando do pai.
— Eu falo mal! É um bostinha, um merdinha, um vadio, — contando na mão os xingamentos — um animal sem nome, um Zé ninguém que veio da rua pra se aproveitar!
— O senhor não dizia essas coisas dele antes, o senhor está sendo duas caras!
— Ele é duas caras também! O mínimo é retribuir!
— O senhor sempre falou que conversando a gente se entende... Na sua profissão o senhor precisa conversar com as pessoas para não ter confusão e está fazendo uma!
— Eu converso com pessoas que mostram o querem, pessoas querem exercer a dignidade plenamente, diferente do mendigo do seu ex-namorado, porque, por mim esse namoro acaba hoje!   
— O senhor não pode fazer isso!
— Eu vou conversar com sua mãe sobre isso, você faz isso porque não tem exemplo de casamento certo. O casamento, da sua mãe e eu, não deu certo, mas você pode ter um relacionamento forte —com a voz mais branda, Amâncio gesticula como se quisesse abraçar a filha.—, não precisa inventar essas coisas. Eu penso em você.
— Pelo amor de Deus, pai! O senhor expulsou o Luciano, xingou ele! Minha mãe não vai gostar de saber disso! É uma vergonha dentro dessa casa!
— Sua mãe não gosta dessas idéias avançadas e modernas, outro dia ela e eu conversávamos sobre esse mundo louco. Só porque nos separamos não conversamos mais? Não pense assim.  
Luiza esperava o apoio da mãe, porém como o pai quase falou por ela, calou-se. Ela se retirou da sala de jantar. Seu pai termina o café, bufando de raiva.

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