Nova lei

  A repórter Ana Lucia está se preparando para entrar no ar. Ela trabalha para a TV Congresso, um canal pago que transmite informações do trabalho do Congresso Nacional, mas ela já sabe que o canal cederá as imagens a outros canais, por isso tivera uma manhã toda de preparação para documentar o momento histórico.
—... Desde que foi implantada, a lei 25.344/84, também conhecida por lei do Corredor Federal, nunca foi usada, muitos acreditam na inconstitucionalidade dessa lei, mas a pressão popular obrigou ao Congresso, de certo modo, a aprová-la. — diz a repórter ao vivo e continuando. — Lembrando que o texto da lei fala que o parlamentar, com prova inequívoca da responsabilidade, autor de crime cometido contra o Estado ou o erário público está sujeito a pena de trinta anos de cadeia, a prisão terá atenuantes se o autor passar por uma vexatória pública.  Essa vexatória consiste em andar por uma espécie de corredor polonês, onde populares munidos de palmatórias baterão no bumbum do parlamentar. Nos dois caos o parlamentar perderá a legenda do partido.  — nisso o cinegrafista direciona a câmera ao corredor e mostra as pessoas já prontas, se exibem para a TV.
A repórter seguida do cinegrafista aproxima-se da multidão, alguns rapazes começam a gritar:
— Agora, é nois! Agora é nois! — gritam na frente da câmera como se tivessem ganhado na loteria.
Ana Lucia chama a atenção do cinegrafista, dizendo:
 — Não enquadra eles! Aqui! — disse ela ao lado de uma senhora. — Vamos. — diz ela para começar a entrevista. — Com que sensação a senhora veio aqui? A senhora acha correto a aplicação dessa lei?
— Eu acho muito bom! — responde com convicção e alegria. — Quando faço qualquer coisa de errado, por menor que seja, o meu chefe me ameaça dizendo que a porta da rua está aberta. Agora um safado rouba da gente e continua trabalhando com a maior cara de pau... Hoje, eu vou descontar! — termina com um sorriso de orelha a orelha.
Ao se aproximar de outra, Ana Lucia pergunta:
— A senhora também está alegre?
— Estou, porque o governo me pagou uma passagem de avião, nunca tinha andando de avião e sempre quis conhecer Brasília.
Uma algazarra ensurdecedora toma conta do corredor, o estouro da manada foi provocado pelo deputado Diego N. Castos, o servidor público fracassou ao roubar dinheiro. Ana Lucia corre ao encontro dele, por causa do furo de reportagem, que estava em uma sala reservada se preparando pra entrar no corredor. O cinegrafista mal focou o deputado e já se notava o cheiro de medo ou de outra coisa. A angústia, engolidas secas e olhar assustado foram saboreadas pelas pessoas presentes. Um momento horrível na vida dele e um momento incrível na carreira da repórter, pois era a única autorizada a estar ali. Ela pergunta:
— Deputado, o senhor está apreensivo?
— Claro que estou! Na minha vida nunca passei por tamanha humilhação! Na minha educação, meus pais nunca levantaram a mão contra mim, sempre tive diálogos com eles, e agora querem me bater como se fosse um moleque? Essa lei é injusta!
— O senhor já deu total apoio a ela, o senhor não está se contradizendo?
— As circunstâncias eram outras, era outro momento... Nunca pensei nisso acontecendo comigo.
 A entrevista acontece ao meio de gritos de “ladrão”. O deputado não agüentando mais os gritos quer voltar para a sala. Aí, os gritos de “ladrão cagão” tomam conta do recinto. Ele ouve conselhos de assessores e decide passar logo, pelo corredor, para a alegria de todos. A repórter anuncia:
— O deputado Diego Castos resolveu passar pela punição agora, lembrando que não vale palmadas em nenhuma outra parte do corpo e sua passagem deverá ser calma, o suficiente todos os presentes, no corredor, tiverem sua chance... Olha! Já começou, filma! — diz Ana Lucia apontando o dedo par o centro do corredor, o centro das palmadas.
O alvoroço é grande o suficiente para fazer a repórter se calar. Se ela descrevesse a cena, ninguém a ouviria por causa do barulho. Somente o cinegrafista pode descrever a cenas. O esforço do homem para suportar a dor é imenso, ele transforma a bunda em concreto. No fim do corredor, por lei, ele é obrigado a retornar ao ponto de partida, ou seja, mais pauladas. O homem não agüenta mais, porém continua até cair. As pessoas esperam ansiosamente ele levantar do chão. “Não seja mole!” alguém grita. Um coro de “levanta” começa e só termina quando o deputado está de pé, tem gritos de alegria e sons das palmadas atrasadas. Quando termina a segunda passagem, uma vaia misturada com xingamentos segue o deputado. Assessores e seguranças o protegem enquanto o tiram dali rapidamente.
A repórter e o cinegrafista correm atrás da noticia. Prontamente ficam lado a lado com um dos assessores, ela pergunta:
— Vocês estão levando o deputado para onde?
— O deputado vai entrar em reunião com o partido.
— O deputado não foi expulso do partido? — essas perguntas ainda correndo.
— Ele vai decidir o futuro político dele, nesse mesmo instante.
— Por favor, podemos falar com o deputado Diego Castos?
— Não podem.
Apesar da negativa Ana Lucia e seu companheiro continuam correndo até que se vê o parlamentar entrar em uma sala. Os dois ficam como moscas querendo chegar perto da carne apodrecendo, na porta. Dois seguranças logo barram os possíveis intrusos. Ana Lucia diz:
— Queremos uma declaração do deputado...
— Vocês não podem falar com ele! — diz o segurança mais simpático.
— Só uma palavrinha...
 Os dois começaram a repreender com as mãos os jornalistas, até sai da sala um assessor, assumi a situação e fala para a repórter:
— Esta é uma situação que será discutida com toda a imprensa em outra ocasião, esperamos a compreensão e educação de todos, especialmente da imprensa.
— Queríamos uma palavrinha...  — diz inutilmente a repórter — O deputado não pode falar agora, lembrando que a lei 25.344/84 foi cumprida, então o deputado Diego Castos terá algum atenuante concedido ainda em juízo... Um momento, o nosso cinegrafista tem imagens do deputado agora... — o cinegrafista percebeu a porta aberta, e sinalizou para Ana Lucia.
 As imagens são fortes; vê-se o deputado chorando, irritado, fazendo gestos obscenos e apontado certamente para a multidão que teimava não para de gritar, além das paredes da sala. Ele tenta sentar-se, mas a dor aumenta com mínimo de contato com a cadeira, fazendo saltar em agonia. Um assessor oferece uma almofada e então ele senta devagar; o choro torna-se mais forte.
             — Como podemos ver o deputado não pode falar no momento, a multidão ainda esta se dispersando, — nisso o cinegrafista mostra os impertinentes pulando o carnaval no meio do corredor — a segurança do congresso irá organizar a saída de todos. Voltaremos com mais informações em breve.
            Ana Lucia termina pronta, para voltar a qualquer momento.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não escreve, não sei sobre você, escreva!

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...