Abrindo portas

Mais um ser humano que precisa de ajuda. A melhor é ajuda profissional, por isso ao invés de gastar o dinheiro com livros de auto-ajuda, ele decidiu procurar um psicólogo.
— Você acha que fez bem? Estou percebendo uma inquietação, você não a teria se comprasse um livro, mas você também não confrontaria seu temor ou como agora está tentando confrontar; acha isso bom ou ruim? — pergunta o psicólogo.
— Não sei..., não sei o que se passa na minha cabeça... — diz cabisbaixo o paciente.
— Não sabe dos seus próprios pensamentos... Hum o que você sente?
— Raiva, desespero, coisas negativas como ondas que se somam, crescem e me dão energia para agir.
— Hum... Então você faz alguma coisa quando sente isso? — pergunta o profissional, anotando alguma coisa interessante em prancheta.
— Faço; quero ver portas abertas.
— Você faz isso?
— Quando percebo, estou espancando alguma porta. Ela não cede. Então continuo.
— Você bate em portas como se estivesse batendo em uma pessoa?
— Não sei, é esquisito, sinto alguma coisa.
— Tente abrir esta porta. — Diz o psicólogo apontando para a porta do consultório.
O homem se levanta da confortável cadeira, caminha até a porta e para. Começa a tocá-la gentilmente, o psicólogo não vê, mas sabe que o outro tem a perplexidade na frente. O toque não é mais suficiente, pois o toque tem o sentido de checar à força da porta, antes que aconteça algo, tem uma pergunta no ar:
— Você percebe a porta, mas não abre, você tem medo? — indaga o psicólogo.
— Não sei por que isso acontece. Doutor, o que acha?
— Você não abre a porta, porque não sabe abrir. Você se lembra de como entrou?
— Não me lembro... Eu não me lembro também o que tem do outro lado...
— Aposto que você não se lembra de como chegou aqui. Não é verdade?
A mudez do paciente era esclarecedora, o psicólogo continuou:
— O seu mundo se reduz a esta sala, como você não abre portas, também não sabe o que tem atrás delas. Você é limitado por portas. Você está preso aqui.
— Isso é impossível, pra eu ter chegado até aqui, por exemplo, eu teria que saber o que tinha do outro lado da porta. Sou livre pra ir aonde quiser.
— Mas você próprio disse a instantes que não sabe o que tem do outro, suponho que se estivesse do outro lado da porta você não saberia que eu estou aqui.
— Mas eu tenho lembranças...  — o paciente inconformado dá um pequeno soco de raiva na porta do consultório.
— Está vendo? — fala o doutor — o que você tem por lembrança é esse ato, nesta sala e nenhum outro lugar. Vá, — fala novamente — abra a janela.
O paciente foi até a janela e a abre sem dificuldades, ele sente calor do Sol, vê pessoas, ouve sons, o vento traz o cheiro de lixo jogado na esquina. O homem sente alguma coisa, vislumbra o que não tem, feche os olhos e começar a sonhar.
— O que está sonhando? Posso saber? Não precisa dizer: pensa que está desfrutando do mundo? Você está preso aqui, não se esqueça. — diz o doutor já aborrecido.
— Eu faço parte do mundo lá fora, não minta!  
— E não vai até lá! Você é incapaz disso!
— É impossível! — diz o enfurecido paciente.
Dito isto ele corre até a porta, e começa a esmurrá-la, dizendo:
— Abra sua vaca! Quero sair!
— Por que não usa a maçaneta, ela está esperando ser girada... — diz o outro homem sorridente.
— O que isso?
— É uma coisa parecida com uma bola, serve para abrir e fechar portas, enfim o acesso que você deseja, girando você terá liberdade, está vendo ela? — disse com ironia o psicólogo.
— Não vejo nada... — realmente, o paciente não viu maçanetas, não havia nada na porta.
— Realmente você não vê, mas sente o mundo através da janela... — o psicólogo diz apontando pra janela. — Ela é uma fuga.
O paciente volta-se para a janela e vê que está alto e sente de novo alguma coisa distante e estonteante. Ele pensa que pular dali é impraticável, pois não haveria nada para se segurar ou amortecer a queda.
— Só pulando você vai ter acesso ao seu mundo.
— Quer saber? Eu vou pular; isso tudo é um pesadelo, não é real.
— Tem certeza? Você esmurrou a porta direitinho como dissera, estivera desesperado antes e está desesperado agora. Um ciclo se repete... — diz o homem saboreando o momento, como se fosse um prazer sexual.
— Não quero saber mais da sua ajuda.  — e pulou.
— Puxa! Ele pulou! — diz boquiaberto o psicólogo — Ia dizer que a liberdade não é a morte.
Novamente o psicólogo oferecerá seus serviços a quem estiver precisando de ajuda ou àquele que precisa de ajuda.

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