Julgamento ou opinião

José Carlos está em horário de almoço. Um colega dele, Antonio aparece chateado com o chefe de ambos. Antonio querendo desabafar fala pro colega como o chefe é um boçal, um semi-analfabeto que teve sorte na vida. Carlos diz que todos devem ter a mesma opinião e completa:
— Ele vai receber o que merece. Aqui se faz aqui se paga.
— Não sei, ele é apadrinhado.
— Não se preocupe, eu vou conseguir... — diz Carlos.
Antonio faz cara de incrédulo ou não se convenceu, se isso acontecerá ou nas palavras do colega, Carlos diz:
— Tenho uma história que aconteceu comigo no lugar onde eu morava. Posso contar?
—Pode. — diz o outro — Se eu chegar atrasado e levar uma bronca do imbecil, eu vou culpar você.
— Eu vivia em um conjunto de apartamentos, onde morava também uma senhora há mais de trinta anos. Sua vida foi de casa para o trabalho e nada mais significativo, quero dizer, ela não tinha vida social ou relacionamento ainda com a família. Era boa em fofocas e covardia, espalhara raiva e indignação para sensibilizar e usar outras pessoas. Assim outros brigaram por ela. Parece a sindica, mas era cínica. — disse Carlos, sem perceber que queria uma historia mais curta.
Carlos dá um gole no café e continua a história, interrompendo o gesto de colocar a xícara de volta ao pires. Com um sorriso diz:
— Agora vem a parte boa. Um dia saindo para trabalhar ela estava no meio do caminho. Dias antes, soube que ela tinha feito uma fofoca, dizendo que eu chegara tarde, porque eu estaria em uma farra. Aí tinha feito o teatro dela para os vizinhos que conversaram comigo, eles acharam estranho tanta raiva até parecia que houvera uma briga com nós dois...
— Pelo amor de Deus, uma pessoa tem raiva de outra, da noite para o dia? Historinha absurda...
— Ela era cheia de moralismos, mas ela queria realmente, os vizinhos dela fossem do jeito que ela quisesse, enfim o tipo de gente que poderia conversar com ela a conversa de que gosta. A pobre coitada queria se valorizar inventando uma nova vizinhança. Fique tranqüilo, essa história tem pé e cabeça.
— Nesses trinta anos de vivendo nesse conjunto ela não tinha amigos?
— Não os que gostaria de ter. Ela inventara problemas para ser uma grande heroína, porém nunca tivera público. Continuando: quando a vi, perguntei se ela queria falar alguma coisa comigo, ela disse que não. Depois; sem querer ouvi uma fofoca dela dizendo que tinha se esforçado para me encarar, “o safado” chamou-me assim, no outro dia deparei-me com ela de novo. Para azar dela, mostrei-lhe uma coisa. Um véu negro cheio de estrelas, caminhos que as pessoas escolhem e um é especial, pois é aonde a maioria das pessoas vão escolhem. Quando ela estivera mais perto, não soube se estava sendo tragada para o ponto verde ou se dentro dela há raízes fortes com o lugar. A dor gerada por sentimentos era muito forte, logo o ponto verde tornou-se um túnel estranhamente avermelhado, distante e giratório, e descobriu à medida que chegava perto que não era um túnel, era uma orgia demoníaca; demônios do inferno estavam preparando a chegada dela com uma festa.
— Você é evangélico? — pergunta Antônio.
— Não se preocupe que meu foco é a história. Ela não tocou no solo infernal, ficou pairando sobre as almas desafortunadas. Então se ouviu um coro: “Manda pra cá! Manda pra cá! Ela queimará e a dor fortalecerá!”. Os demônios dançavam, pisoteando sobre os condenados; o circulo formado pelos demônios, para recepção da velha, deixou alguns desafortunados, esmagados contra o solo, livres para implorarem piedade e salvação. Agarraram-se a velha pensando que ela era um anjo, mas só puxaram-na para perto do sofrimento. Ela sentiu o calor do inferno queimar as pernas. Os demônios disseram: “Vem pra cá! Vem pra cá! Você vai cozinhar!”. Quando ela voltou a si estava caída no chão em choque emocional e toda borrada.
Ficou a sem ter a quem recorrer, pois tinha tido uma experiência absolutamente pessoal. Achou que o único caminho era freqüentar todo tipo de culto, para se livrar de um destino horrível... —José Carlos percebeu que o colega já ia embora. — não foi uma historia interessante?
            — Qual a relação disso tudo que você contou comigo?
— Todos têm a resposta para os problemas que procuram.
— Inclusive você, com essa coisa toda me perder tempo... Meu Deus!
— Acha que eu “lucrei” contando isso?
— É claro! Eu conto uma coisa e você vem com outra... Uma história maluca moralista cuja moral é conveniente a você. Você deu uma lição de moral em uma velha... Quem é você pra isso?É especial? Não tem defeitos também?
— Eu sou como você e igual a todos os outros. Eu vou ser julgado como qualquer pessoa também.
— Deixe-me ver, — disse isso fechando os olhos — se eu tivesse essa suposta habilidade, eu poderia fazer a mesma coisa que você fez à fofoqueira e com você?
— Isso mesmo. — diz absolutamente convicto Carlos.
— Ainda continuando, se você exagerou usando essa habilidade, vai pagar por isso?
— Correto. Como disse, eu sou igual a qualquer um.
— Você não é simples moralista?
— Não, Tonhão, você já está fazendo perguntas demais, não quer levar uma bronca?
— É mesmo, tenho que ir.
— Temos que ir.
Os dois voltaram para trabalho. Antonio pensa: “pra mim ele fez alguma coisa com a velha e não quer contar...”. Antonio se convenceu que Carlos não é moralista ou falso moralista, mas se ele tinha habilidade sobrenatural foi outra historia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não escreve, não sei sobre você, escreva!

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...