O mundo acaba em seguida

E finalmente a sociedade chegou ao fim, o mundo chegou ao fim. Homens, mulheres, crianças, velhos, doentes, criminosos não estava mais sob a proteção de autoridades, do governo, benfeitores. É cada um por si agora. Um grupo de sobreviventes refugia-se debaixo de um toldo de uma padaria, esvaziada pela fome e destruída por guerra. Os cinco, duas mulheres e três homens, vêem o céu estrelado e aquecendo-se numa fogueira de papel jornal. A única organização deles é fila para o banheiro da padaria que ainda serve. Encolhidos debaixo de seus cobertores conversam como era o mundo. A tristeza parecia ser um sentimento saudável no momento, assim conversam e deprimem-se juntos.
Toda noite a mesma coisa, a mesma conversa e conteúdo, até que Alessandra vê que um dos jornais que iam queimar continha um texto sobre os “Cínicos do Pagode”, sua banda favorita.
— Olha gente, já ouviram os “Cínicos”?  Eles não são os máximos?
— Nunca ouvi. — diz Jorge sem querer conversa.
— Eu já — responde Bruna —, fui a um show deles, onde paquerei muito.
— Homem gosta dessas coisas? — pergunta Jorge diretamente para Bruna.
— Gosta sim, pode ter certeza que são uma boa banda. — até fiquei com vários.
— Pensei que só iam pra esses lugares mulher e gay. Você tem certeza que só pegou macho? De verdade? — Jorge, o instigador.
— Não seja chato! — responde com raiva Bruna.
— Isso mesmo. — solta Alessandra. — A gente podia cantar uma música deles.
— Mas ninguém sabe uma coisa dessas. — fala novamente Jorge.
— Não importamos, nós aprendemos. — diz Manoel se aproximando mais das garotas.
Manoel e seu pequeno harém começaram a cantar sem sincronia: “eu te traí e agora sou corno também...”, Lucas que estava à parte da situação, se junta em uma oportunidade de ficar perto das meninas, mas Bruna recosta a cabeça no peito de Manoel enquanto ele troca olhares com Alessandra, ela sendo a professora de música queria que todos a seguissem e a outra arranca carinho de Manoel, ele era a personificação dos Cínicos do Pagode, adorado pelas suas fãs.
Na quinta vez que eles repetiram “vou atrás da minha ex para amá-la na sua frente, traidora”, Jorge berra:
— Pelo amor de Deus! O que é isso, que safadeza! Fiquem quietos, quii - eee – tooooss!
— Que foi Jorge? Que surto é esse? — Alessandra assustada.
— Foi essa merda — diz, arrancando o jornal que contem a noticia sobre a banda das mãos da fã. — O mundo acabou e vocês ficam cantando essa música deprimente.
— Essa é a musica que a gente gosta. — diz também o defensor das mulheres, Manoel.
— Eu não gosto, nunca vou gostar. — fala Jorge.
Ficando de pé sem tirar olhar da cara de Jorge, fala:
— Não gosta? Do que você gosta, pra ver se a gente entende.
— Eu gosto de Beatles...
— Eu não quero cantar algo que não entendo — interrompe Alessandra —, ninguém entende aqui, alguém entende aqui? — finalmente pergunta.
— Não. — responde Manoel.
— Isso é música satânica, eles colocam mensagens subliminares de apologia satânica. Com tá em inglês a gente não percebe. — disse Bruna.
— Isso mesmo. — novamente Manoel.
— Não existe isso, em musica nenhuma dos Beatles! — responde Jorge.
— Não interessa, todos estão se divertindo menos você, se está incomodado, se retire.
Jorge não agüentou mais, ele jogou ao mesmo tempo o jornal que estava nas mãos, ao fogo, e inúmeros palavrões. Disse que aquilo era deprimente demais para ele e foi embora, mas antes de sair disse mais:
— O mundo acabou por causa de gente como vocês que sabem da existência de um problema e só resolve ele quando está na sua frente.
Jorge saiu na escuridão e ninguém viu ou quis ver. Ninguém entendeu nada do “maluco”, como o chamaram pela suas costas. Eles cantaram por algumas noites as músicas preferidas. De repente, um deles falou da fome e esse novo assunto foi motivo de conversa por mais algumas noites. O banheiro da padaria finalmente falhou e sentiram que a sociedade acabou. Se tivessem lágrimas eles chorariam, mas estavam muito cansados e famintos. O primeiro a morrer foi Lucas, morreu calado assim ninguém percebeu até ele começar a feder. Os outros não souberam o que fazer então eles arrastaram seu corpo pra longe deles. Alessandra disse:
— Devíamos procurar comida amanhã... — sem completar o pensamento.
Todos concordam e passam a ultima noite juntos debaixo do toldo, pois durante a noite cai uma forte chuva e parede que sustentava o toldo cai sobre eles, sem resistência e luta todos morrem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não escreve, não sei sobre você, escreva!

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...