Nova casa, nova vida

Célio acabou de comprar a casa dos sonhos. Para sua família ter uma boa moradia, ele não se importa de gastar dinheiro e a casa foi uma pechincha em comparação com outras no mesmo local. Célio sentia que os antigos donos queriam mudar rapidamente e ele pressentiu um terrível problema.
Célio fica curioso e conversando com a mulher sobre o que sentia, até que ela disse:
— Você vai de mansinho até lá e “pergunta”, de mansinho também, para eles o que está acontecendo, vai que a casa tem algum problema, aí eles fogem sem nós sabermos e arcamos com prejuízos.
Determinado e com sorte, Célio vê os filhos do casal brincando na porta da sua futura casa; apesar de estarem de mudança os filhos ainda brincam com se fossem donos da rua.
— Olá! — diz Célio — Seu papai e sua mamãe estão em casa?
— Estão lá dentro terminando a mudança.
— Está é uma casa muito bonita, aposto que vocês vão sentir falta dela, não vão?
— Eu vou sentir saudades dos meus amigos.
— Eu também. — diz o outro menino.
— Mas vocês vão visitar eles quando quiserem, seus pais vão deixar não vão?
— Papai disse que isso tudo vai sumir da noite pro dia.
— Como assim “vai sumir”?
— Vai desaparecer.
— Eu não entendi, a casa é sólida, ela é bem construída?
— A casa, a rua, o bairro vão todos desaparecer.
— Vai sumir tudo que existe como numa mágica do Harry Potter, aliás, ele também vai sumir. — disse o outro mais calado.
— Sumir? Nós também? Nós todos?
— Você vai morrer, mas a gente já está salva. — disse o caladinho.
— Salvos como? Vocês também estão incluídos em tudo que existe!
— Papai disse que já estamos salvos, vamos nos mudar para garantir isso!
Célio não quis acreditar, mas tinha um pretexto para conversar. Vendo os adultos de mudança, pergunta:
— Olá!Tudo bem?
— Tudo ótimo!
— Estava conversando com os seus filhos e eles disseram que iriam para um lugar melhor que esta casa...
— É verdade, iremos para um lugar de nós gostamos.
— Este lugar não vai sumir como este bairro? Se tudo vai deixar de existir, este lugar maravilhoso também vai ou não?
— Como?
— São palavras de seus filhos que falaram de um jeito como se mundo fosse acabar...
— Talvez acabe... — disse uma voz pesada.
— Como assim? — retruca Célio.
— Estou indo para um retiro espiritual, uma colônia agrícola se preferir chamar assim, para ter uma vida mais simples, tudo acaba um dia e quero preparar minha família para esse fim.
— Por isso estão vendendo a casa? Para se livrar de bens materiais desnecessários?—pergunta Célio sem entender.
— Isso. Você não entende?
— Não. Esta casa tem ótima localização, uma vida simples pode tentar aqui mesmo.
— Eu não posso mais tentar, o fim de tudo está muito próximo. Preciso preparar-me e minha família para uma nova consciência antes do caos.
— Ah... tá certo, depois passo aqui...
Célio volta para casa e conta tudo para a esposa, depois da pausa e olhares trocados, eles caem na gargalhada; além de saberem o dia do juízo final, serão felizardos em um novo e terrível mundo. Pelo menos deixaram a casa maravilhosa para eles. Célio sabe que tudo tem fim, sabe disso quando vê pânico causado pela passagem de um cometa pelo noticiário da televisão. Profecias, religião, vida sem sentido, tudo isso conspira para que ele não adormeça e fique deitado na cama, olhando o teto que pode cair sobre sua cabeça. Quando menos espera, Célio cai num sono pesado.

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