Vende-se um idéia

As pessoas andam pelas calçadas buscando concretizar seus objetivos ou chegar as suas casas. Um homem bem vestido, de terno e gravata contrasta com o ambiente suburbano simples. Com certeza ele busca concretizar algo. Deve ser alguma coisa importante, seu jeito sério e calmo passa a mensagem de objetividade; não que outros tivessem, mas aparentemente emoções não faziam parte do trabalho dele. Percorrendo o bairro, chega a uma porta. Bate nela até ser atendido.
— Olá, senhor Josué! Como vai o senhor?
— Eu vou bem, dona Zeza! Como vai a senhora, hoje? Pronta pra me dar uma resposta?
Os dois se sentam em uma mesa próxima. Josué abre sua maleta e ele mostra documentos cheios vantagens de contrato especial de um plano de saúde. Zeza olha tudo com curiosidade e pergunta:
— Esse contrato é porque eu tenho alguma coisa especial?
— Dona Zeza, todos os clientes são especiais, pois todos nós precisamos de saúde, não é mesmo? O contrato diferenciado é uma opção de agilizar os serviços do plano, como falei anteriormente.
— Então o plano que o senhor está me oferecendo, não é bom? Que falha eles tem?Explique-me de novo.
— O plano é bom, mas a lei não. Se a senhora fizer o plano hoje, a senhora vai ter um prazo de carência de seis meses, segundo a lei. A senhora só vai usufruir do plano daqui a seis meses, por isso o contrato diferenciado, ele faz que os contratantes usufruam agora, por que podem ter doenças agora, não é mesmo?
— O senhor falou em lei, esse contrato é contra a lei?
— Não dona Zeza. Veja este documento com atenção, aqui tem a assinatura do gerente comercial do plano, meu chefe, se responsabilizando pelos custos gerados pelo desvio da norma, é só nós pagarmos uma taxa, que não acresce em nada a prestação do plano.
— O plano do contrato diferenciado? É esse que eu vou ter?
— Exatamente, com isso a senhora terá todas as vantagens do plano, assim que pagar a taxa de adesão.
Nisso ouve-se batidas na porta, dona Zeza levanta-se para atender, o vendedor de costas não percebe três homens com coletes pretos nas costas dele, dizendo:
— Fique quietinho aí!O senhor está preso.
— O que é isso, eu não sou criminoso. Sou trabalhador!
— Você era trabalhador, era vendedor. — diz um dos policiais.
— Não pode ser isso, eu estou vendendo um plano de saúde aqui.
— Você tentou dar um golpe, levante-se que o senhor está perdeu!
O homem segurou-se com força a cadeira, usando as mãos, como um menino mimado as ordens da autoridade eram rejeitadas. Um dos policiais irritou-se:
— Tenha dignidade! Seja homem!
— Eu quero justiça! Estou sendo injustiçado! O que foi que eu fiz? Quero ser julgado agora! Eu quero ter meu direito, principalmente o de liberdade, agora!
— Você acaba de ser preso, em flagrante, por tentativa de estelionato... Ele te mostrou alguma coisa pra senhora?—dirigindo-se a dona Zeza.
— Ele me mostrou um contrato especial e disse que era aprovado por um gerente, tinha até assinatura, nem sei se é de verdade.
Um dos policiais pegou o documento. Josué vendo a conversa dela com os policiais, perguntou:
— Dona Zeza, a senhora me traiu, fez uma cilada, pensei que fossemos amigos.
— Amigo da noite pro dia? Eu desconfiei de você com seu contrato “beleza”, tire ele logo daqui.
— Se solte daí. — disse o policial impaciente.
— Você me disse que era tentativa, se é isso, não cheguei a cometer crime nenhum! Podem parar de apelar.
— Nós estamos na sua cola há um tempo, aqui foi tentado, mas já cometeu este mesmo crime em nome de outra empresa. Nós sabemos. Além disso, você também pode ser acusado de fraude.
            — Fraude? Ainda mais essa? — pergunta atônito Josué.
            Ele não percebe que suas mãos se afrouxaram, mas os dois policiais ao se lado perceberam. Em um só pulo Josué foi algemado. Ele esperneia tentando sair.
            — Você não saíra! — disse um dos policiais.
Preso foi levado à força até a porta, descendo as escadas como moleque brincalhão, Josué pula três degraus de uma vez, assim derrubando os policiais que não conseguiram acompanhá-lo. Sem a força opressora, o preso viu a liberdade dobrando o fim da rua. A corrida louca de Josué foi seguida de perto pelos policiais, pessoas saíram às portas para observar a gritaria no meio da rua. Viram rapidamente um homem algemado correndo em direção a uma rua transversal. Gritos, frenagens, som de colisão foram mais fortes do que uma visão indistinta do que ocorria. Josué tinha sido recolhido por uma caminhonete. Seu corpo voou longe. Imóvel pode ser olhado por curiosos. Os policiais chegaram, mas não eram paramédicos não puderam fazer nada, apenas observar:
— Ele está vivo, está se mexendo! — disse alguém.
 Todos observam o semimorto, aí ele começa a se balbuciar algo. Uma das pessoas chegou, mais perto pra ouvir; retorna sendo interrogado por um dos policiais:
— O que ele disse?
— Ele quer arrumar a gravata dele.
— Só isso?
— É só isso.
O próprio vai ouvir a frase da boca moribunda:
— A minha gravata está desarrumada. Eu tenho que arrumar a gravata...
 Logo o ultimo suspiro vem com um berro:
— A minha gravata foi minha mãe que deu!
Josué não queria ser preso e não vai ser preso. Os policiais se preocupam agora em preservar a cena do acidente. Terão que relatar tudo direitinho e explicar como o suspeito escapou e morreu. Agora as pessoas param e o observam.

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