Fatalidade

Silvana está cansada no ponto de ônibus. Ela espera há mais de quarenta minutos com seus cinco filhos. Ansiedade toma conta dela, mas ela não demonstra. Embora o desejo de sair daquele local seja forte, ela murmura uma musica como se aquele dia fosse comum. A preocupação é com o bem estar dos filhos. O ônibus chega, ela conduz o rebanho com mesma calma que estava antes. Mal entram no veículo quando o motorista diz:
— A senhora tem dinheiro para pagar todas as passagens deles?
— Alguns podem passar de graça, eu pago os outros.
— Não. Todos têm que pagar. Ou paga as passagens ou desce agora.
— Estou precisando sair daqui moço, estou neste ponto há muito tempo... — quase implora Silvana.
— Eu também estou perdendo tempo com você, tenho horários a cumprir. Saia do meu ônibus!
Silvana reconduz seus filhos, com o olhar pontiagudo do motorista na sua nuca. O gesto dele atravessa o caráter previamente julgado. Um, dois, três, quatro sons de disparos são ouvidos ao invés do som do arranque do ônibus. Silvana está caída, ensangüenta para o horror de alguns passageiros e incompreensão de outros, entre a porta do veículo e ponto de ônibus. Um homem foge rapidamente. Os passageiros se vêem fazendo o contrário, indo ao encontro da infeliz, para socorrê-la. Os filhos ao lado mãe não sabem como aliviar o sofrimento. Alguns passageiros pedem ao motorista para levá-la a algum pronto socorro, mas ele recusa dizendo que chamaram já uma ambulância. A polícia chega, ao mesmo tempo em que a emergência, fazendo seu trabalho:
— Você viu se tinha mais alguém com no ponto? — pergunta o policial ao motorista.
— Não tinha, só tinha ela e as crianças.
— Você sabe como era a pessoa que atirou na sua mãe? — pergunta outro policial a uma das crianças.
— Era meu pai. Ele disse que ia pegar a mamãe hoje de manhã. — com uma voz tristonha e medrosa.
— Tem certeza? Conte-me como aconteceu.
— Mamãe disse que estava cansada dessa vida infeliz e que o pai maltratava muito ela, ela disse para gente sair cedo correndo de casa, para ele não vier atrás da gente. A gente estava esperando o ônibus pra rodoviária, a gente ia viajar pra casa de uma prima.
— O motorista não quis ajudá-la, ela parecia desesperada! — disse um dos passageiros á alguém.
A agonizante Silvana tem o amparo de pessoas, contudo não é uma salvação, é mais uma luta por uma vida digna. O motorista tenta se defender dizendo:
— Eu não sabia o que estava acontecendo.
Saia antes de a comoção popular tornar exacerbada. Dirigir um ônibus era uma boa desculpa, para os problemas da rotina, mas por causa dele, poderia ser acusado de alguma coisa, mesmo sendo uma acusação indireta. Melhor ir para delegacia, assim justifica o resto do dia de folga e evita a explicação do ocorrido para os colegas. Silvana vai ter a explicação dela na ponta da língua no momento que acordar do coma. Se acordar, quando acordar, poderá ter alguma coisa da sua saúde mental intacta, os tiros eram pra serem fatais. As feridas da sua alma demorarão em cicatrizarem, no entanto ela sempre teve muita paciência, pode aguentar. A situação humilhante e aterrorizante, que queria evitar, ocorreu. Alguns passageiros pensam se fatalidades, como aquela, poderiam ser evitadas:
— É a falta de uma lei dura, falta prisão perpetua.
— É a falta de Deus, um casamento abençoado pelo Senhor, não terminaria desse jeito.
 São teorias, conjecturas, as pessoas são imprevisíveis. A fatalidade não se cansou de esperar.

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