Desabafo

Há muitos anos, Marcos tinha se tornado evangélico. Conseguiu respeito com sermões improvisados para com colegas também evangélicos e às vezes com não evangélicos. Marcos, um dia, está esperando um ônibus quando vê um antigo colega de faculdade. Aproximando-se devagar, como uma sombra liga-se ao colega, até que o outro percebe a respiração sombria, olhando em seguida o seu rosto sem expressão. O colega não deu bola, porque conhecia a peça. Se Marcos era tão colega por que não cumprimentou e fingiu ser um ninja? Ele pensou que Marcos não era tão confiável. Como o outro não notou a sua presença, Marcos disse:
— E aí rapaz?
— Olá. — respondeu. — Se quer falar comigo, então venha de frente, desse jeito parece um tarado.
Marcos esperava uma resposta diferente, pois da cara inexpressiva para a de tensão foi um passe de mágica.
— Que é isso! Eu só querendo puxar conversa, eu não sou gay, você sabe muito bem disso!
— Eu disse que você parece um tarado, não um gay, entenda o que eu digo pra você não criar depois suas conversas.
— Que conversas?Eu não sou fofoqueiro.
— Você não é um pastor evangélico, mas aparenta tal. Um oportunista que sempre procura uma platéia. Você sempre está insinuando que os outros são desafortunados, menos você. Fica insinuando que tem alguma coisa de diferente pra abusar da inteligência dos outros.
— Por que você está dizendo isso agora Anderson?
— Pra você entender o que está acontecendo, pra depois você não se fazer de um vitima agredida sem razão...
— Eu não estou entendendo a sua “razão” pra isso, meu amigo...
— Desde quando você foi meu amigo!? — explode Anderson. — Você é um amigo da onça! Nós tivemos um contato de seis meses, mas senti que te conheço a vida toda!  Você tem esse papo de temente a Deus, mas é um falso moralista!
— Mas é claro que me conhece, porque eu sou um mensageiro da verdade, uma verdade que toca implacavelmente...
— Você é cara-de-pau! Está pensando que sua presença, muda alguma coisa no mundo? Você é tão igual a qualquer um! Você é feito de carne e osso, ressentimento e magoa, religião nenhuma muda isso.
Nesse momento Anderson percebe seu ônibus esta indo embora; sem o individuo na sua nuca, ele estaria naquele ônibus. Num primeiro momento a raiva através de um palavrão contido, no entanto ela poderia ser canalizada, pois sem a preocupação de um ônibus, a atenção se voltaria para o ex-colega. Anderson dispara:
— Você tem essa cara de fuinha porque acha que sua bíblia é algum escudo? Um escudo para todo tipo de conflito, principalmente para os que você cria e resolve. Assim sua cara não desenvolve força de reação e você pensa que já faz tudo de bom na vida.
— Eu tenho consciência do que faço! — demonstrando coragem — Eu não tenho medo! Eu tomo a frente das situações, não me esconde atrás de nada durante minha vida! Eu sou capaz de agir por conta própria, não preciso recorrer à bíblia pra ser macho. Eu vou discutir com você e provar que minha fé é iluminação suficiente pra mim!
— Tem mesmo? Então admite que a lista de exercícios de álgebra linear do programa de mestrado que nós dois estávamos respondendo juntos; você não tinha noção do que era certo ou errado, mas você me fez acreditar que sabia as respostas, aí eu pego minha lista com suas respostas todas erradas e cadê você nessa hora? Tinha desistido do curso. Sem nenhuma explicação.
— Eu tinha meus problemas, por isso desisti.
— Eu também tinha e responder a lista era um desses problemas, aliás, um dos nossos problemas, você sempre dizia querer pessoas participativas, eu fui com você nessa, pois eu também acreditava em nos dois juntos. Eu dependia daquela lista para minha nota final. Você parecia depender também, mas me enganou, usou-me como um exemplo de sua vida perfeita, insinuando que estava me ajudando desde que eu tinha todas as idéias e você só rechaçava com suas idéias. Eu tenho muito raiva de você, porque você conhecia os bolsistas dos professores do mestrado que corrigiam as provas. Você sabia que suas idéias estavam erradas, por isso você saltou fora do barco quando ele começou a fazer água. E me deixou sozinho. Meus problemas aumentaram com você e sua iluminação, já que essa conversa você insinua há muito tempo.
— Poxa! Você está irritado só porque eu desisti e não te avisei, eu não sou igual a você... — nem pode completar a frase com a seguinte interrupção.
— Está notando? Você já está começando a fazer suas manipulações, eu não disse que você era assim? Você gosta de inverter tudo, ia completar a frase dizendo que não tinha idéia do que acontecia, mas antes disse que tinha consciência de tudo que fazia, não foi?  É claro que a safadeza existe em você, mas pra você Deus passa a mão na sua cabeça, isso foi uma das coisas que disse em de seus sermões de meio de rua. Já esqueceu também? Você sabe o que é conveniente, não?
— Eu sou safado? — pergunta atônito Marcos.
— É óbvio! Você procurava filmes pornôs, revistas eróticas, pra provar quem tem Jesus ou não, eu não liguei por achava isso seu problema; aí descobri boatos que eu via essas revistas ou filmes, boatos que você espalhava; mesmo, se fosse verdade, esperaria que eu fosse tratado do mesmo jeito que tratei você, mas isso não aconteceu. Fui tratado como um tarado, enquanto você saía pela portas dos fundos, quando percebeu que não teria resultados no programa. Você precisou de mim e me apunhalou pelas costas!
Marcos apresenta um rosto assombrado com a quantidade de informações então Anderson aponta o dedo para um grupo de mendigos viciados em uma esquina:
— Está vendo aquele bando de vagabundos? Eles não têm trabalho, decência, propósito, eles vivem como passarinhos, sobrevivendo sem pensar no amanhã. Você chegou lá fez o que fez sem nenhum propósito, sem decência denegriu minha imagem sem ganhar nada em troca, manteve uma imagem de pureza que não deu nada. Logo você é tão igual a qualquer vagabundo de ponta de rua.
Marcos não queria ouvir mais nada, desde que chegou naquele ponto, só ouvi o que não queria. O seu rosto virado evitava que as palavras de Anderson o socassem diretamente. Perdendo o primeiro round, não esperaria o segundo. Quando um ônibus chegou, disse:
— Esse é o meu...
— Esse é o meu também. — disse Anderson — Que foi? Está raiva?
— Você disparou contra mim muita coisa, coisas do passado ficam no passado, não acho que tenha conseqüências. Estou certo disso! O momento pode ser analisado instantaneamente e só preciso da compreensão de Deus. Entenda que a consciência acusa, o Espírito Santo diz “não é bem assim”, ele alivia a minha alma o tempo todo. Eu digo isso com todos e todos concordam.
 — Pra mim teve conseqüências! Eu perdi tempo e fiquei mal falado. A compreensão do seu deus não me ajudou em nada. O seu deus! Seu deus só pode ser de macumba, porque só você é beneficiado e eu tenho que ser maltratado. Acha que alguém perde, alguma coisa, não estando filiado a sua assembléia? De não ouvir as palavras de um falso profeta? — olhando para Marcos mudo — Por que você é um falso profeta, você entende, não? Têm fetiches sexuais, hipocrisia, como qualquer um e se veste em pele de cordeiro. Você ensina aos outros com suas como escapar de um julgamento moral...
Marcos iria retrucar alguma coisa, mas ficara mudo como se tivesse nascido deste jeito, de repente:
— Você não pode abarcar minha fé! — e sai entrando no ônibus rapidamente.
— Isso mesmo — disse Anderson — seu ônibus também é diferente pra mim.
Anderson voltou atrás e não foi no mesmo ônibus que Marcos, talvez já estivesse cheio

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