Apego

            No mundo pós-apocalipse, o sol nasce, atinge seu ápice e se põe, para um mundo sem ordem. Claudio e Ana se conheceram no 1º andar de um shopping, onde procuravam abrigo. A união improvisada reúne as ultimas forças de esperança. Será que o mundo voltaria a ser o que era? Perguntavam-se os dois, um para o outro, sem ter o que fazer e tentando sobreviver. O shopping, em seus tempos áureos, oferecia tudo que seus clientes queriam, mas agora só o teto. A comida escassa é uma benção quando encontrada. Por mais incrível, Claudio e Ana nunca viram outra pessoa naquele lugar, dando um clima pouco romântico e um pouco oportunista, já que Ana não vê outro homem mais bonito que Claudio e ele não vê outra mulher mais bonita que ela.
            — Amor, — fala Cláudio — chegue mais perto de mim, está tão frio.
            — Gostara mais do frio do ar condicionado quando o shopping funcionara, este frio parece ser penetrante. Chega até nossos ossos.
            — É mesmo. Você visitava muito este lugar antes da catástrofe? — pergunta Claudio.
            — Visitava muito, dava até pra arranjar um ficante.
            — Você ficava muito, não é mesmo? Mas eu sou melhor que esses outros, eu faço sexo melhor que outros, porque eu gosto de você.
            — Às vezes penso que somos ligados, assim, um ao outro porque não tem mais ninguém aqui. Será que seria diferente se houvesse outros conosco? Sinto que alguma coisa seria diferente, queria imaginar o que é. — disse Ana com voz pesada.
            — Você está triste? Vem que a gente faz agora gostoso...
            — Eu não quero sexo!Estou cansada.
            — Nós só podemos fazer isso aqui. Não tem uma alma pra interagir conosco, não tem alguma a mais coisa pra fazer e a melhor coisa pra esquecer-se do medo e do mundo falido é beijar muito. — diz ele confiante.
            — Nós não saímos daqui, deste canto, desde que o mundo acabou, percebeu? O nosso “novo” mundo é este canto, se existem pessoas lá fora reconstruindo tudo, nós nunca saberemos.
            — Você está cansada, é de mim! Você quer sair por aí pra arranjar outro cara! Você já admitiu a instantes que ficava muito, só está querendo outra oportunidade de transar com alguém diferente! —o eco da voz de Claudio ecoou com raiva, naquele andar vazio.
            — Eu sou uma safada? Quem sabe a única safada deste mundo que te serve. — um tom irônico.
            — Quando o mundo acabou, acabou a sociedade, a ordem humana, é cada um por si e Deus por todos, nós só estamos aqui juntos porque eu confiei em você e você confia em mim. Se você sair por aí, vai encontrar alguém que não te valoriza com eu. Se você não quer sexo tudo bem, outro desse “novo” mundo a usaria como boneca inflável, eu uso camisinhas. Nós não temos como saber de nada, nós só temos um ao outro, só temos o amor. O amor esquenta neste frio. — diz Claudio apertando Ana contra ele.
            — Isto é verdade, — diz também Ana sorrindo — é melhor aproveitar o tenho agora. Só acho que existem pessoas lá fora, podem ter vida melhor que nós. Tenho curiosidade, mas não quero sair daqui sozinha.  — termina beijando.
            Em dias posteriores, finalmente acontece alguma coisa nova.  O andar térreo é tomado de sons, como se algo ou alguém procurasse objetos ou fosse somente o vento derrubando coisas. Claudio decide verificar, contudo Ana o interrompe dizendo que não quer ficar sozinha. Claudio diz:
            —Você tem medo do quê? Pode ser apenas um animal.
            — Fala pra mim que você volta, estou cansada de ficar sempre sozinha nesse lugar.
            Claudio fica calado. Não queria se comprometer, ter conversas como naquela que teve em uma noite dessas, todas as noites é muito ruim. A falta de esperança no amanhã e na convivência o empurrava a aceitar a desilusão antes que ela acontecesse. Claudio disse:
            — Se acontecer alguma coisa, siga com sua vida normalmente... Procure alguém que te ouça. — e sai em busca da origem do barulho.
            Ana espera por um tempo que parecer ser eterno e Claudio não retorna. Ela sai pelo e do shopping com coragem e um pouco de comida que resta. Como ela há novos desbravadores pelo mundo e há novos sentimentos também.

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