Surpresas para um recém casal

            Um casal recém-casado ainda se descobre. O namoro de cinco anos e noivado de dois anos foi uma festa que fez os dois não enxergarem algo mais de estereótipos felizes. Claro que já tiveram suas desavenças, mas nada grave o suficiente para pesar no relacionamento.
            Domingo à noite, o casal assiste ao programa televisivo juntinhos, ele sentado no canto do sofá de modo espalhafatoso, ela com a cabeça recostada no peito dele com as pernas dobradas sobre o sofá, muito aconchegante. No programa há uma notícia de que haverá mais mulheres no futuro que homens.
            — Aposto que vocês mulheres lutaram entre si, sem homens pra todas vocês com é que vão fazer? — pergunta o homem curioso.
            — O jeito é se conformar.
            — Vocês vão se matar de inveja de quem tem um parceiro, principalmente na cama. — disse confiante o marido.
            — É só dividir o homem com amiga ou alguém de confiança.
            — Isso não aconteceria, nunca, vocês vão ser egoístas nessa hora.
            — Eu faria isso. — disse com confiança e certeza a mulher.
            — Você me dividiria com outra mulher? — pergunta o homem surpreso.
            — Se é para o bem geral do mundo, é claro. Uma mulher pode ajudar outra mulher, somos diferentes de vocês homens, eu tenho uma mente diferente do que pensa. — disse novamente confiança.
            — Você não teria ciúme? — insiste o marido.
            — É claro que não! É só ter um acordo, pode ter duas mulheres e um homem ou três mulheres e um homem. Pra baratear podemos todos dormir na mesma cama, — não achando que falou demais — podemos nos entender, pois teremos os mesmos desejos e objetivos.
             O marido pensa em alguns instantes, ele olha a televisão, mas seus olhos olham além da informação que tinha acabado de absorver. Em tom sério, ele fala:
           
  Tudo bem, eu quero três mulheres, uma na cozinha, outra limpando a casa e a ultima na cama pra eu comer quando quiser, nua no quarto, e lógico que vocês podem revezar nas funções.
            — Não sabia que você era machista!— disse a mulher já recostada no sofá.
            — Não sabia que você era bissexual, perceba que eu tenho direitos de organizar como a mulherada viverá nessa casa. Aliás, com tantas de vocês por aqui, tendo “desejos e objetivos”, alguém tem colocar ordem! Eu, como único macho de verdade, tenho as rédeas da situação. — retrucou o marido sorrindo.
            Do conforto para o desconforto foi uma passo, a mulher senta-se no sofá preparada para sair da sala, mas encara o marido, ele um pouco surpreso encara a mulher.
            —Não sei por que você está brava. Eu não vou ter preconceito com uma pessoa que tem o mesmo gosto que o meu. —afirmou a marido.
            — Não seja cara-de-pau. Você está tentando se aproveitar de uma suposição, seu oportunista, seu porco! Três pessoas pra fazer o que você quer? Só faltam mais algumas pra trabalhar no seu lugar e te sustentar.
            — Essa é uma boa idéia! Tá vendo, nós não somos tão diferentes, meu “camarada”!
            A mulher em estado impassível dá um cruzado de esquerda, seguido de um chute de kickboxer no diafragma do marido. O homem sem saber se sente dor ou se tenta respirar, recompõe-se com olhar incrédulo, desvia, tenta andar na sala sob olhar de um animal traiçoeiro.
            — Meu Deus!  —ele consegue dizer só isso.
            — O que foi? Você não esperava uma ação dessas de um “camarada”.
            — Meu amor não precisava ficar irritada... Conversando a gente se entende...
            — Já conversei suficiente com você, durma aqui, no sofá hoje.
            Quando o homem recupera-se do susto, o novo fôlego só serve pra dizer:
            — Não sabia que você era violenta. Se soubesse, não teria me casado. Que brucutu!
            —O que você acha que eu fazia na academia? Pintava unhas? Eu fazia aulas de aeroboxe! No mundo de hoje uma pessoa tem que saber se defender, pois tem inimigos por todo lado, não se sabe de onde vem.
            — Poxa! Eu sou seu marido, eu estou no seu coração... E você está em meu coração também.
            — Eu sei disso “e da próxima vez”, eu retiro seu coração pra saber exatamente onde eu estou. Agora pegue suas coisas e durma aí mesmo.
             O marido calado e cabisbaixo se arruma forçadamente no sofá, enquanto houve o estrondo forte da porta do quarto. Aquela ameaça era tão familiar, aliás, um dos motivos que fez os dois se aproximarem, pois percebiam os mesmos gostos, e se conhecerem mais ou pelo menos o suficiente, talvez pela manhã ela voltasse a ser a mulher que era. É claro que eles resolveriam a discussão, mas agora tinham liberado lados mais sombrios.

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