Na idade média faça como os medievais - parte final

A fogueira apagava naquela noite. Com o fim do espetáculo sombrio, todos voltam para suas casas. João e sua família fazem o mesmo apressadamente, pois a fome chega, sem mesmo eles se prepararem pra ela. Finalmente, no cubículo familiar os coelhos estão quase prontos, todos reunidos ao redor da mesa esperando pela comida, cheios de ansiedade e pensamentos; Ana fala pra mãe:
            — Mãe, o demônio pode andar em todo lugar, né?  Por isso aquela mulher tinha que morrer, pra não mostrar como andar pelo mundo?
            — Isso mesmo.
            — Por que aquele homem, que era o marido da herege, estava junto dos padres? Ele também é acusado? — pergunta novamente a Ana.
            — Não, filha. Ele foi enganado, assim como nós. Ele é consciente dos deveres que te mos pra a Igreja, ele é devotado e contribui, ele não pecou como a esposa dele. — completava a mãe — Ele está livre do demônio.
            — Com tem certeza disso, mãe? — perguntou Lucas — Ele não parece conosco. Dizem que humildes, como nós, entrarão no paraíso, por isso essa vida de amargura e penúria valerá suportar. Ele trabalha com dinheiro, tem clientes que vivem com dinheiro, manipula coisas suaves enquanto nós pegamos em coisas pesadas. Além disso, as roupas são diferentes, os costumes são diferentes, com o dinheiro do trabalho dele, ele pagou professores para aprender a ler e escrever. A gente viu hoje, é que a vida de cada um tem, é independente da participação demoníaca.
            — Você está querendo dizer algo? Ou está querendo repetir alguma coisa? — pergunta o pai, já ficando aborrecido. — Não seja homem de meias-palavras, diga logo!
            — Ele tinha vida como a nossa, mas com o resultado do trabalho dele, mudou a vida também, teve gente por que esperava a volta dele pra vila como um mendigo, mas não aconteceu isso, aconteceu o oposto, aliás, ele só voltou pra cá, para se casar com aquela infeliz que foi queimada. Eu sei que os queriam ser invejados, agora o invejam por que come refeições boas. Poderíamos imitá-lo. Se a gente vendesse parte do excedente da colheita, nós teríamos dinheiro para comprar coisas uteis e boas, melhor do que trocar por coisas, pai, já pensou podermos comprar o que precisamos agora, ao invés de esperar a oportunidade de uma troca. O dinheiro faz parte de um sistema de troca mundial.
            — O excedente é pra passarmos o inverno, quer que passemos fome...
            — É claro que não! Se a gente passa fome, então é porque não cuidamos do excedente bem. O senhor sempre pensa que amanhã vai ser pior que hoje, por isso passamos fome ao poupar comida no inverno esperando uma catástrofe.  Aí a comida estraga por causa de mofo e o senhor diz que está tudo bem. Quem sabe, foi Deus, que apesar da colheita diminuir, sempre fornece a quantidade que precisamos e um pouco mais? Quem sabe, seja pra nós decidirmos sobre o que fazer com esse pouco mais?
            — É pra nós sairmos do campo, que há gerações nos sustenta, em busca por ganância por dinheiro, eu entendi isso, agora entenda que você está pecando, o demônio...
            — Eu não disse pra sairmos daqui! Observando nossas vidas, digo pra nós mesmos decidirmos as nossas vidas. O senhor acha que o demônio tem trabalho ou intenção de prejudicar uma vida idiota como essa? Ele leva uma fama que não precisa, por incompetência... — Lucas vira o rosto pra não terminar o que vai dizer, talvez seja ofensivo para o pai dele.
            Todos do resto da família ficam mudos. João baixa a cabeça por um instante, só parar pegar fôlego. Ele diz:
            — Entenda que o futuro, só Deus sabe. Eu não sei o que os demônios fazem exatamente. Acontece que o nosso modo de vida é justificado, assim ensinaram pra mim e pra sua mãe. Nós não sabemos mais nada sobre a vida, isso que fazemos é tudo que podemos ensinar. Não podemos aprender de mais nada de útil.
            Lucas cala a boca, vê que não conseguirá arrancar um raciocínio próprio do pai e saber se ele não pode ou não quer aprender alguma coisa nova. Mas seu ímpeto o obriga a falar, antes que se cale de vez:
            — Talvez, então, nós não podemos fazer alguma coisa pra mudar?
            — Isso mesmo meu filho.
            Agora todos se calam, mas Ana queria ter conversado mais alguma coisa. Vendo a briga na sua família, fica quieta por um tempo. No dia seguinte, Ana tem a oportunidade que queria e pergunta a mãe:
            — Mãe como podemos ter certeza de aquele homem não é um herege?O Lucas insinuou que ele não é porque todos acham que não é, mas ele pode ser mesmo assim, não?
            — Acho difícil filha, ele denunciou a esposa, antes do pecado da mulher chegar à consciência ele a afastou.
            — Como à senhora sabe disso?
            — Não se esqueça que foi a primeira mulher do mundo, Eva, que fez seu marido, o Adão, pecar. O mal nos acompanha geralmente as mulheres, o que se vê por aí, são bruxas pactuadas com o inferno. O mundo é perigoso para nós porque nós trouxemos o mal. Por isso somos as primeiras a serem julgadas. Você percebe isso filha? Que o mundo é diferente para nós?
            — Sim.
            — Então, você faz bem em conversar em segredo comigo, os homens como seu pai e seu irmão podem expor opiniões, nós mulheres seremos pré-julgadas com muita mais força, vê que Jesus era homem? Os homens têm poder e razão.
            — Então Lucas está certo? Podemos ter uma vida diferente sem um pacto com satã?
            — Você está imaginando muita coisa filha. Se lembre tome cuidado com você diz.
            — Está bem mamãe.
                Mais um dia monótono e sem graça passa na vida deles. Um dia cheio de motivos que não levam a um objetivo. Um dia que como outros serão agraciados de bênçãos pelos infortúnios que nunca aconteceriam.

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