Na idade média faça como os medievais - parte 1

      Aquela vila é como as todas as outras. Cada família acorda, começa a trabalhar cedo na terra, faz o necessário de acordo com clima. Abaixa a cabeça quando o senhor ou seus superiores vistoriam o trabalho nas terras de cultivo. Toda essa rotina ajuda os plebeus, a não pensarem nos problemas mais imediatos. Cada uma das pessoas em seu pedaço de terra emprestado, fazendo suas obrigações, não mantêm relações sociais prósperas. Os pais começam a pagar suas obrigações junto ao pedaço de chão, quando morrem, os filhos assumem plenamente as obrigações, quando morrem, os filhos desses, netos dos primeiros, assumem o novamente as obrigações da vassalagem. Ser vassalo exige continuidade. O trabalho na terra deve ser eterno.
            A família de João vivia do cultivo de trigo nas terras de um nobre que durante toda vida deles não o viram, pois ou ele não aparecia nas terras ou estavam de cabeça baixa em respeito ao nobre que vistoriava. João trabalha do mesmo jeito que seu falecido pai, acorda de manhã para averiguar a plantação, acorda junto com família pra decidirem o que fazer, a maneira  de garantir a sobrevivência, um lugar pra morar. Ele ultimamente estava desfalcado, a mulher grávida ajudara nos primeiro meses de gestação, mas nos últimos meses estava também se preservando do serviço pesado, já tinha tido vários abortos por causa do excessivo serviço. Os dois sobreviventes, Lucas de doze anos e Ana de sete anos, ajudavam o pai no trabalho na terra. Cada membro trabalha em um setor do cultivo. Com o desfalque da mãe, Lucas foi incumbido no trabalho do setor dela. Trabalho dobrado para o jovem e com resultado reduzido ano após ano. Os campos vizinhos são interessantes, eles têm partes verdejantes cheias de pasto e outras cultivadas. No fim da tarde, Lucas volta de seu trabalho dobrado ao encontro do pai e da irmã. Cada um carregando um fardo do seu tamanho. Quando chega perto dos outros, João fala:
            — Estava na hora de você voltar do trabalho, se esqueceu que todos nós temos um compromisso no centro da vila, hoje? Todos nós temos de estar lá, socializaremos com o resto das pessoas.
            — Pai, meu setor é duas vezes maior, eu trabalho dobrado.
            — Não minta pra mim, você não está com um fardo duas vezes maior, você deve ter trabalhado pela metade.
            — Pai é verdade, a plantação não é como antes, parece que a produção diminui com o tempo.
            — Isso você tem razão.
            — Por que isso acontece, pai?
            — Isso é o destino traçado pelo nosso Senhor.
            — O conde é burro, se a gente não conseguir colher o suficiente, não tem os tributos suficientes de que ele gosta, não é pai?
            — Não filha! Eu não me referi ao conde, eu falei de Deus, o Criador, Ele é o senhor do destino aqui na terra. — disse isso apontando o dedo ao céu.
            — Pai, por que o senhor apontou o dedo ao céu?— pergunta novamente a Ana.
            — Porque Ele vive lá, Ele nos vigia de lá de cima.
            — Pai, como o senhor tem tanta certeza? O campo vizinho não tem esse problema de produção e eles não cultivam todo o terreno, acho que a produção está ligada com o uso do terreno, por que não perguntamos a eles como fizeram, pra fazermos também?
            — Como assim? Acha que estou fazendo alguma coisa de errado?— João fala bravamente, fixando o olhar no filho. — Desde muito tempo eu faço esse trabalho do mesmo jeito, se acontece alguma coisa, não é culpa nossa, é o destino ou obstáculos colocados por nosso Senhor Cristo, em cada um dos nossos caminhos. Nós temos que suportar isso tudo sem reclamar, nem pensar que pode ser diferente, é pecado ir contra a vontade divina! Vivemos em tempos turbulentos, o mal está à solta, isso que acontece nem pode ser obra de Deus, pode ser do diabo, querendo confundir você, seu fraco! Sendo obra de Deus ou não, você só pode ter fé Nele, que tudo passa.
            Lucas cala a boca, não tem mais ânimo pra conversar com o pai, muito menos pra desafiá-lo como João pensa. Depois de alguns instantes de silêncio, Ana fala:
            — Quem é o diabo?
            — É o inimigo de Deus, ele nos odeia.
            — Por que ele nos odeia?  Pergunta novamente a menina.
            — Porque somos os filhos queridos do Senhor.
            — O padre disse que todas as criaturas são divinas, se todas as criaturas do mundo são criaturas de Deus, então o diabo também é? E nós somos mais queridos de todas as criaturas, então o diabo tem inveja disso?
            — Sim filha, ele era um anjo, um dos muitos criados por Deus, um anjo caído que tem inveja — a ênfase nessa palavra foi redirecionada a Lucas pela boca de João — de nós por merecer o apreço do Senhor, por isso ele foi pro inferno — outra ênfase redirecionada ao garoto — um lugar que um bom cristão não deve ir, por isso ele quer nos destruir. — outra ênfase redirecionada.


CONTINUA...

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