Uma amizade - parte 1

            Claudio e Marcelo se conheciam desde crianças, eles estudaram juntos no mesmo colégio, depois na mesma faculdade, conheciam e, até, namoraram membros das famílias de um e outro, mas não significa que tudo seja claro entre os dois. Claudio começa a desconfiar das atitudes de Marcelo, quando aquele resolveu se candidatar a vereador, o outro também quis se candidatar. Isso foi a gota d’água em copo que teimava em não transbordar.  Marcelo sempre observou Claudio com desdém, mas nunca deixou também de ter um pouco de admiração pelo colega. Por isso mesmo nunca deixou de estar ao lado de Claudio, só nos momentos mais fáceis das vidas de ambos; os vários momentos gloriosos desfrutados por Claudio, ele esteve contente demais para perceber alguma coisa, e os vários momentos desastrosos engolidos por Marcelo, esse sempre tivera uma cara cínica pra qualquer ocasião.
            Marcelo observa ao longe Claudio em seu palanque, discursando, tentando comover as pessoas, tentando conquistar as pessoas. Ao termino foi ao seu encontro dizendo:
            — Sabe que quando eu falei no meu discurso, tentei só passar algumas informações racionais, não fiz nada tão apaixonado. — disse sorrindo.
            — Vai dizer agora que tem idéia própria? Quem sabe você só faz alguma se eu fizer antes não? Eu vi você olhando pra mim, por isso não venha criticar, já que você precisa mais de mim, do que eu de seus conselhos. — respondeu o outro sorrindo também.
            Aquilo era inesperado, a amizade não era forte e acabou ali mesmo. Numa convenção partidária, os dois se encontraram novamente. Cada um distante, cada um com sua cara-de-pau respectiva. Para a surpresa de Claudio, Marcelo falaria antes dele, como representante do partido. Começou dizendo:
            — Hoje no século 23, usamos nossos trabalhos como meio de elevação espiritual, estamos distantes das sombras das dúvidas do futuro incerto, com os pés firmes em trabalhos nobres, esquecemos as incertezas provocadas pela 3ª guerra mundial, podemos levar a ordem aos outros povos da galáxia...
            Alguns riram, outros gargalharam, outros ainda não acreditaram no que ouviram; era pra ser um evento sério. Marcelo percebendo a reação dos ouvintes para o pronunciamento.
            — Senhores, eu estou passando por problemas sérios, estou desconcertado, com stress e problemas emocionais, uma amizade que eu julgava forte, acabou. Fui traído e pisado. Valores que eu julgava reconhecer em um antigo amigo, mas fui enganado. Durante anos, trabalhei com esforço, devotei a ter uma vida transparente de modo que quando chega um momento como esse, aqui neste plenário, todos possam confiar em mim, mas o que é de mim se eu não puder confiar em alguém? Que tipo de realidade, eu vivo, que tipo de realidade, eu poderei mudar, já que no trabalho público a confiança é inestimável.
            Claudio perturbado se levanta:
            — Isso sou eu que devia dizer, sobre você, invejoso!
            Todos ficam estáticos, esperando o que aconteceria em seguida. Marcelo também fica estático. O outro continua:
            — Que foi? Você não vai imitar os gestos de mão também? Você nunca teve uma atitude própria, porque é um coitado que precisa das atitudes dos outros, para se espelhar.
            Marcelo recomposto diz:
            — Bom, não é a sua vez de falar. Não seja afobado companheiro.
            — Você é um safado, canalha! Demorei anos pra perceber como você me usava, agora é vítima? Procurou uma vítima de algum crime pra imitar também? Você é idiota, acha que se eu ganhasse a eleição você também ganha, ter prestígio nas sombras dos outros, como isso é possível?
            — A atitude que tive com você, foi a mesma que eu tenho com meus amigos e familiares. Minha família me educou com esses valores que eu nunca desrespeitei. O problema sempre foi com você e o seu modo particular de ver o mundo.  


CONTINUA...

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