Mãe para o mundo

           Letícia é uma cidadã comum, orgulha-se de fazer parte da sociedade, seu julgamento está corretíssimo, pois cumpriu vários requisitos que todos julgam necessários. Foi educada, tem emprego, constituiu família e não se desvirtuou disso nem uma vez sequer. Portanto ninguém pode apontá-la na rua sobre algum defeito. Sua vida aparenta ser ótima. Todos os dias, seu trabalho a mostra como é abençoada, todos lá são seus amigos. Mas quando chega a sua casa comenta como seu dia foi cansativo numa porcaria de emprego. Todos a escutam esperando alguma coisa de útil. Mas as palavras, que saem da boca, são pequenas maldições pra sua própria vida. Ela está sempre certa, pois é ouvida com atenção e ninguém tem mais o que fazer na hora da janta. A família mais uma vez reunida era a platéia de um monólogo:
— Minha vida não é como quero, esse trabalho não é o que queria. Se eu tivesse sorte estaria em algum lugar melhor como as minhas amigas de juventude, que se deram bem, nos lugares certos, nas horas certas, eu teria dinheiro.
— Você quer dizer alguma coisa? — pergunta o marido de forma inconclusiva.
— Só estou dizendo: não tenho dinheiro que queria.
            Não há mais perguntas, ninguém quer mais monólogos. Todos sabem, como ela age, mais perguntas liberaria a raiva reprimida pra todos os lados; a resposta ao monólogo:
            — Se eu tivesse mais dinheiro poderia ajudar mais a vocês.
            Todos percebem essa preocupação, o marido à espera por ela na cama, pois ela está observando os filhos enquanto dormem; os filhos dormem sossegados, pois sabem que a mãe os cuida; a mãe todas as noites pega uma faca e não decide se mata a todos ou não. A mesma conversa todos os dias a torna menos verídica, porque Letícia não resolve os problemas que tem? O instrumento é fácil de usar senão ainda está na sua mão.
            A consciência pesa durante todos os anos daquele casamento, que ela julga mal-sucedido e se projeta através dos olhos, caindo-os nos filhos. Se não tivesse ficado grávida, teria se divorciado, experimento mais da vida. Mais distante no passado, mais alegre era a vida, os planos que comentara juntos com as amigas de usar, aproveitar mais da vida e de homens, mais liberdade. O crime que pensa cometer é de menos em comparação à prisão, chamada família, de um crime que nunca cometeu. A desculpa está pronta, a língua afiada quando afirmar que um doido entrou, assassinou os filhos e fugiu. Sem os motivos dos quilos adquiridos, vê no espelho a cintura de pilão que retornará à dona.  
            Letícia ouve passos, o marido chega à cozinha e diz:
            — Pare de trabalhar, mulher! Você reclama e trabalha ainda mais! Esse serviço de cozinha é pequeno pra mim, isso deixe que eu faço.
            — Só quero fazer alguma coisa pra que nenhum de vocês pense que eu reclamo demais. Já estou acabando de lavar as coisas, vá para a cama.
                O casamento teve um motivo e tem um bom motivo, já durante anos teve estabilidade e previsibilidade no dia de amanhã. Guardar a faca significa que a estabilidade continuará. As amigas não ajudarão, não planejarão, não estão por perto e nem eram tão amigas dela. Esteve sempre sozinha e o casamento alivia a solidão. O seu pequeno mundo nunca mudou. A tristeza sem julgamento é melhor que a tristeza com julgamento. Os dedos param, de apontar, quando a faca é guardada. Conformismo é a sua melhor saída. Ser recompensada é a meta e consolo agora, ter atenção é o instrumento de reconhecimento.

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