O inferno é aqui

            Amauri é um cara trabalhador, porque aparece no local de trabalho todo dia e nos finais de semana ajuda o patrão na empresa, pois espera ser reconhecido e ser promovido também. Sua vida toda foi trabalhar, não tinha muitos amigos e nenhuma namorada. Para Amauri, isso servia de razões e motivos para explicar os pormenores da sua vida. A grosseria, a raiva e a mania de esperteza eram causadas por uma vida infeliz e irremediável. Um dia chegou um homem na oficina e perguntou:
            — Olá Amauri, está tudo bem?
            — Oi, está tudo ótimo. — respondeu
            Amauri tinha respondido, porque percebeu algo de familiar nele, embora não o reconhecesse imediatamente. O homem demonstrando simpatia sacou uma pistola e atirou a queima roupa em Amauri. Ele caiu no chão atordoado com o tiro na barriga. O homem falou:
            — Vê como você é imbecil? Pensa que é esperto? Imagina que não acontece nada com você e por isso pode fazer o que bem quiser?
            Amauri, caído, só percebe o homem apontando aquela arma pra ele. De repente uma sensação de leveza, ele vê a oficina, o bairro, pensa em estar em casa e vai pra lá instantaneamente, viaja pela estrelas, que lindas todas as cores delas, vê alguma coisa brilhante, sua luz o invade com uma sensação de medo e terror profundo, aquilo o puxa com força ou perdeu as dele devida a intensidade das sensações.  Percebe que está numa fila enorme, em um vale enorme, não sente seu corpo como antes, e coisas humanóides berram com quem está na fila, aterrorizado, pois sabe agora que está no inferno. Um demônio chega nele e grita:
            — O que está acontecendo? Não se ligou que está morto? Isso aqui é o inferno, não é a sua antiga casa, é a nova. Ande na fila.
            — Como eu estou no inferno? Não cometi algum crime na vida, sempre trabalhei muito...
            — Por acaso o seu trabalho te deu forças pra sair daqui? Você sempre o usou como escudo das suas mesquinharias e defeitos. Até agora a pouco você viveu estacionado nas próprias idéias arrogantes e estúpidas. Nunca produziu coisa que fosse além da sua própria maldição.
            — Se eu morresse, esperava pelo menos ir ao purgatório...
            — Você esperou demais por coisas e pelas pessoas, e fez muito menos por outros. Aqui cada um tem sua dor correspondente com a dor que fabricou para si, para outros ou ambos. Também apenas é a continuação da sua vida antiga. Cada um flagela outro e depois é flagelado. Você merece isto tudo. O inferno te pertence.
             Dito isso o demônio sacode o que sobrou de Amauri para o meio da multidão de mortos. Estes ainda carregando rancores da vida passada começam uma pequena sessão de tortura, flagelos ou qualquer outra coisa terrível para um humano; tudo isso visto e aplaudido pelos demônios que diziam que é assim o verdadeiro inferno. A consciência de Amauri foi o que sobrou, a única coisa que o identificava no meio de tantos outros semelhantes a ele e manifestava a razão torturante dele esta ali. O peso, que ele tentou evitar durante a vida dele, o esmagaria pela eternidade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não escreve, não sei sobre você, escreva!

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...