A beata

            Dona Maria das Graças vai pra igreja todos os dias rezar, por isso é conhecida pelas crianças pelo apelido “reza velha”. Ela nunca se casou, não freqüenta lugares públicos, não tinha contato próximo com familiares, alimentava-se mal com refeições apressadas, pois possui horários rígidos de missas e orações. Sabíamos da existência dela pelo hábito rotineiro de freqüentar a igreja. No meio da rua, ouve-se:
            — Reza velha, vai rezar? Reza pra mim! — dizem os moleques na rua.
            — Parem com isso, seus desocupados! Se descobrir quem diz isso, vou contar pra mãe de vocês! Bando de demônios! — diz dona Maria.
            Ela não percebe exatamente quem a chama de desse jeito, mas sabe que as mães dessas crianças estão na igreja orando, enquanto as mães rezam deixam os filhos libertos na rua. Portanto, quando as mães estão por perto não tem o apelido. Chegando à igreja, ela procura ter uma conversa aparentemente informal:
            — Devíamos fazer um catecismo com os filhos dos freqüentadores da nossa paróquia. Eles não têm nada pra fazer e como diz o velho ditado: “cabeça vazia oficina do demônio”, eles ficam livres na rua podendo receber más influências.
            — A idéia é boa dona Maria. Mas quem poderia dar essas aulas? Nós temos que nos preparar por algum tempo para...  — diz alguém do grupo.
            — Eu daria essas aulas. — interrompe Maria das Graças. — Eu fui criada uma família de educação moral exemplar, não como outras que existem aqui. Eu me sinto preparada pra dar a esses diabinhos o que eles merecem que muito de vocês não ensinam dentro de suas casas.
            — O que é isso? A senhora quer dizer alguma coisa? A senhora não tem coragem de dizer o que pensa e ainda pensa que tem moral pra insinuar coisas sobre a família dos outros?
            — Eu tenho a moral necessária pra dizer que seus filhos são endiabrados, os pais podem manter algumas obrigações para a igreja, mas dentro do lar deixam os próprios filhos, sem educação, à própria sorte! Eles me colocam apelidos e se escondem como covardes.
            — Perceba o que está dizendo senhora, modere as palavras. — diz outra.
            — Ninguém aqui quer ouvir histórias da carochinha, todos conhecem a senhora desse modo vai ser difícil mudar o pensamento das crianças. — disse alguém do fundo do grupo.
            — Estão vendo! São vocês mesmos que ensinaram a esses fedelhos a fazer isso, hipócritas! — diz furiosa dona Maria.
            A fúria de Maria das Graças é grande, não teve o respeito que quer, mas também sai dali, porque já que fez o suficiente, rezando, por hora. Com certeza ela continuará a receber o apelido por muito tempo.

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